sábado, 26 de setembro de 2015

Veja o filme, vá à exposição: Mr Turner merece

Por Vilma Pavani

Vi recentemente pelo Netflix o filme Mr. Turner, sobre o pintor britânico William Turner (1774 - 1851), filho de um barbeiro e fabricante de perucas e cuja mãe era de uma família de açougueiros. Ele desenhava desde adolescente e seu talento foi reconhecido rapidamente. Para muitos, ele é o maior pintor de sua época e o ponto culminante do romantismo, com suas paisagens belíssimas e suas marinhas cheias de luz e cor. Não é a toa que ele nitidamente influenciou os impressionistas. Acho que um dos pontos altos do filme, dirigido por Mike Leigh e com o ator Timothy Spall, é o trabalho primoroso de fotografia e o foco claro do diretor sobre o que fez de Turner um grande pintor. Sem falar que Spall dá um banho de talento. Não, não, esqueçam Peter Pettigrew de Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban (2004), por mais que ele esteja ótimo, também.
Fiquei curiosa sobre uma cena, que não sei se é verdadeira ou não, quando Turner se amarra em um barco sob a tempestade para vê-la de perto. Pode ser liberdade do diretor, mas quando vemos as telas dele, é bem fácil acreditar.
Em seu testamento, Turner legou suas obras à nação, mas exigiu que se construísse um museu para abrigá-las. Se isso não fosse feito em um prazo de dez anos após sua morte, elas deveriam  ser vendidas. Passado mais de um século, nem se construiu o museu nem as obras foram vendidas e os quadros de Turner foram reunidos em um anexo à Tate Gallery, em 1987.
Para quem tem curiosidade em conhecer mais de perto o pintor, ainda dá tempo de ir à Pinacoteca de São Paulo e ver a exposição “A Paisagem na Arte”, com obras da coleção da Tate Galery, que mostra um grande recorte da arte britânica. Além de Turner, estão lá obras de John Constable, Ben Nicholson e Richard Long. A exposição vai até dia 18/10.



 Chuva, vapor e velocidade (1844)





Vilma Pavani é jornalista e morre de inveja de William Turner e de tantos outros pintores que sabem ver o mundo de uma maneira tão especial.

sábado, 12 de setembro de 2015

Matando a saudade dos clássicos

Por Dora Carvalho

Pouco a pouco, filmes clássicos começam a ser adicionados nos serviços de streaming e, nas últimas semanas, o Netflix colocou a disposição dos assinantes algumas pérolas do cinema, como O sol é para todos (1962); A um passo da eternidade (1953); Sindicato de Ladrões (1954); Era uma vez no Oeste (1968); Ladrão de Casaca (1955) e Aconteceu naquela noite (1934).
Quem poderia imaginar há poucos anos que poderíamos assistir em tão boa qualidade e baixo custo filmes tão antigos, sem a necessidade de comprar as caríssimas coleções de clássicos em DVDs ou blu-ray? Dá até para fazer uma maratona de clássicos, começando pelos já citados e passando pelos trabalhos de diretores como Alfred Hitchcock, admirando a beleza dos galãs de antigamente, como James Stewart, James Dean, Carry Grant e ver a cara de bad boy de Clint Eastwood nos filmes de faroeste (ótimos para uma sessão da tarde!).
Por falar em faroeste, como não amar John Wayne? Ele e James Stewart estão em O homem que matou o facínora (1962) – considerado um dos melhores filmes de faroeste de todos os tempos.
E de 1959 tem o delicioso Quanto mais quente melhor, com Marylin Monroe e a dupla Tony Curtis e Jack Lemmon.
Para fechar a sessão nostalgia, que tal Butch Cassidy, com Paul Newmann e Robert Redford? Saudades dos tempos que assistíamos os filmes só por causa dos atores e não perdíamos um novo trabalho de um bom diretor. Em tempos de enxurradas de filmes de super-heróis e poucos lançamentos, é hora de voltar para os clássicos seja na lindíssima fotografia em preto e branco ou nas películas de colorido artificial. O que vale é resgatar o glamour de época ou a delícia de uma boa história.















sábado, 5 de setembro de 2015

Feriadão de leve: três dias, três dicas

Por Dora Carvalho

O inverno dá os últimos suspiros neste feriadão de 7 de setembro em São Paulo e o que resta para quem não encarou a estrada e prefere a duplinha “sofa+cama” nos três dias que seguem é aproveitar a preguiça. O cinema está sem lançamentos bombásticos, então, é hora de ver aqueles lançamentos em DVD do primeiro semestre que foram esquecidos, nublados pelos sucesso dos blockbusters e dos premiados do Oscar.

A cem passos de um sonho

Como frio, preguiça e feriadão combinam com comida, vale destacar o longa "A cem passos de um sonho" (2014), dirigido por Lasse Hallstrom. Gosto muito desse diretor, por sempre flertar com o fantástico em seus trabalhos. Quem se esquece do delicioso Chocolate (2000)? Hallstrom volta dirigir uma comédia sobre comida, em que a culinária francesa flerta com a indiana, em uma história simples, cuja principal qualidade é a inusitada trama sobre uma briga entre a dona de um restaurante estrelado no Guia Michelin de gastronomia e a família proprietária de uma casa de iguarias indianas. Prepare-se para terminar o filme querendo ir ao estabelecimento típico da Índia mais próximo da sua casa... Ou unir com a leitura do livro “A viagem de cem passos”, de Richard C. Morais, do qual é baseado o filme.



Questão de tempo

Uma combinação perfeita para mim: comédias inglesas e enredos sobre viagem no tempo. O filme Questão de Tempo (2013), dirigido por Richard Curtis, que assinou os roteiros dos deliciosos Simplesmente Amor (2003) e Bridget Jones: no limite da razão (2004), une as duas coisas em uma história sobre um jovem que descobre ter herdado a capacidade de voltar no tempo. Empolgado no início, Tim, vivido pelo Domnhall Gleeson (Harry Potter e as relíquias da morte/2010), aproveita o dom para conquistar Mary (Rachel McAdams). Mas logo descobre que um detalhe alterado no passado pode ter graves consequências. Filme leve e inteligente que deixa no ar: se pudéssemos voltar no tempo, será que valeria à pena mesmo mudar o curso dos acontecimentos?






 Uma promessa

Comida, comédia e agora romance. O filme “Uma promessa” (2014) completa a trilogia de dicas para o feriadão. Dirigido por Patrice Leconte (A pequena loja de suicídios/2012), é uma adaptação para o conto “Carta para uma desconhecida”, do escritor austríaco Stefan Sweig.  Para quem está com saudades de ver romances de época bem dirigidos, fotografia esplendorosa e linda trilha sonora, o drama é imperdível. O time de atores também ajuda com Rebecca Hall (Transcendence/2014)), Alan Rickman (o eterno professor Snape da saga Harry Potter) e Richard Madden (Guerra dos Tronos). O enredo começa na Alemanha de 1912, com a história de um jovem diplomata que vai trabalhar como assistente pessoal de um rico dono de uma siderúrgica. O contexto é a Primeira Guerra Mundial, que vai mudar drasticamente as vidas dos personagens. A trama se desenrola como se estívessemos lendo um livro, aliás, essa é a principal qualidade do filme, que reforça a sensibilidade com que Leconte conduz o longa.




A cem passos de um sonho (2014) - 2h03
Direção: Lasse Hallstrom

Questão de Tempo (2013) - 2h03
Direção: Richard Curtis

Uma Promessa (2014) - 1h34
Direção: Patrice Leconte


sábado, 29 de agosto de 2015

Gustav Klimt, A dama dourada e a Segunda Guerra

Por Dora Carvalho

Durante a Segunda Guerra Mundial, milhares de obras de arte foram confiscadas pelo exército nazista das residências, empresas e instituições judaicas. Estima-se que pelo menos 100 mil objetos ainda não foram restituídos aos descendentes dessas famílias e estão espalhados em várias partes do mundo. Parte desta história é retratada no filme A dama dourada (2015), estrelado pela premiada atriz Helen Mirren (A rainha/2006).
Baseado no livro da jornalista americana Anne Marie O’Connor, é uma história extraordinária sobre como o quadro O retrato de Adele Bloch-Bauer, obra-prima do pintor austríaco Gustav Klimt, foi parar no museu Belvedere de Viena. O longa conta a disputa judicial entre Maria Altmann - a sobrinha da musa retratada no quadro - e o governo austríaco para reaver a posse da pintura.
Esse é o tipo de filme que muitas informações podem acabar sendo spoilers para quem não conhece nada da história e até pode tirar um pouco do suspense proposto pelo longa dirigido por Simon Curtis. Particularmente, tenho gostado de alguns trabalhos desse diretor, que também conduziu outro filme baseado em fatos reais: Sete dias com Marilyn (2011). Curtis também dirigiu o seriado da BBC Cranford , que já falei aqui no blog.
Helen Mirren dá o tom do filme. Embora a história seja triste, a atriz carrega o personagem de curiosas singularidades ao recriar a figura de Maria Altmann, com vários momentos de comédia e, é lógico, faz com que o espectador passe a torcer pelo sucesso da empreitada conduzida por ela e pelo jovem advogado Randy Schoenberg, vivido no longa por Ryan Reynolds (RIPD – Agentes do Além/2013). Uma curiosidade: Schoenberg é descendente do compositor austríaco Arnold Schoenberg, que teve grande influência sobre o movimento expressionista da música no início do século 20. 
A obra de Gustav Klimt é um tesouro da Áustria. O artista foi um dos maiores de seu tempo na Viena do início do século 20 e o quadro O retrato de Adele Bloch-Bauer faz parte da fase dourada do pintor. E o filme nos instiga a conhecer ainda mais um pouco sobre o artista, a família e as inspirações para a intrigante obra de Klimt.








A dama dourada (2015) – 1h50
Direção: Simon Curtis
Livro: A dama dourada: Retrato de Adele Bloch-Bauer - Anne Marie O'Connor - Editora José Olympio

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Estreia mais esperada: 007 contra Spectre

Por Dora Carvalho

Mês de agosto mais parece um período de entressafra de estreias de filmes. Só nos resta aguardar com ansiedade o que vem por aí e aproveitar para colocar em dia as muitas temporadas de seriados, porque tem muita coisa boa para assistir seja na TV a cabo, DVDs ou streaming.

É lógico que tem centenas de filmes estreando, mas minhas expectativas por enquanto giram em torno de poucas produções. Já estou até com saudades de ficar esperando dezembro para a grande estreia de final de ano, como alguma parte da saga Senhor dos Anéis, Hobbit etc …

Mas tem sim um filme que estou aguardando com grande expectativa: 007 Contra Spectre. Desta vez, James Bond investiga uma organização secreta que surge a partir de um fato do passado do agente da rainha.  Enquanto isso, "M" tenta manter o MI6, que pode ser desativado em razão de uma crise política.

Mas por que estou ansiosa para ver 007 Contra Spectre …?   

# tem o Daniel Craig - não preciso me ater a detalhes em relação a isso – o melhor 007 desde Sean Connery, embora eu não tenha nada contra os outros;
# o Christoph Waltz (quem esquece dele em Bastardos Inglórios/2009?) promete ser um vilão que vai ficar na história da trama só pelos poucos segundos que se vê no trailer;
# a cada filme, roteiristas reforçam a mudança de tom da franquia – saem as cenas estapafúrdias e as bond girls lânguidas de sempre e entra um 007 sombrio, frio, acompanhado de mulheres fortes, que subvertem os clichês de mulheres fatais apenas na beleza;
# a lindíssima Monica Belucci no elenco mostra que uma bond girl não precisa estar na casa dos 20 anos e a Lea Seydoux também promete arrasar, misturando o visual bond girl/agente secreta;
# eu achei que iria morrer de saudades de Judi Dench no papel de “M” até descobrir que Ralph Fiennes está no papel;
# só falta agora ouvir a trilha sonora.


O filme é o 24° da franquia e foi dirigido por Sam Mendes. A estreia está prevista para 6 de novembro.




sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Nina Simone: a sacerdotisa do soul

Por Dora Carvalho

Assistir o documentário What Happened, Miss Simone?, produzido pelo Netflix e recém lançado pelo serviço de streaming, nos faz refletir o quão pouco nossa sociedade avançou em relação aos direitos sociais e principalmente os da mulher. Ver a conturbada trajetória de vida da artista e sua influência em relação a opinião pública sobre os direitos civis nos anos 60 nos faz pensar que, de várias maneiras, estamos revendo um triste filme.
Mas o documentário está longe de ser algo desolador. Ao contrário! O talento indescritível de Nina Simone nos preenche de beleza e sensibilidade.
Eunice Kathleen Waymon (nome de batismo da cantora, compositora, pianista e ativista dos direitos civis nos Estados Unidos) foi chamada em 1963 pela crítica e público de “sacerdotisa do soul”.
A voz sem limite e que parecia não haver nenhum esforço para alcançar aquele timbre ao mesmo tempo aveludado, provocante e feroz dava tanta intensidade à obra da cantora quanto o estilo virtuose da artista ao piano. Na metade do documentário, um apresentador de programa de auditório dos anos 60 assim define Nina: “a artista associa técnica e disciplina geralmente utilizadas na música clássica e introduziu a fuga e contraponto ao estilo e espontaneidade livres do jazz”.
Em 1963, Nina Simone foi convidada para fazer uma apresentação de gala no Carnegie Hall, em Nova York e disse: estou no Carnegie Hall e não estou tocando Bach” - em referência ao compositor clássico Johann Sebastian Bach e ao fato de a casa ser notoriamente conhecida por receber músicos eruditos, porém, aberta a artistas populares de grande talento.
A artista começou a tocar piano aos três anos e, incentivada pelos pais, cursou a concorrida e exigente Juilliard School (escola de música e artes cênicas), em Nova York. Vítima de preconceito, não conseguiu se firmar em conservatórios e salas de espetáculos de música erudita, então, partiu para as apresentações de jazz, blues e soul. Foi quando trocou de nome e assumiu o pseudônimo Nina Simone. O estilo logo foi conquistando plateias não só nos EUA como ao redor do mundo. E o legado da artista ultrapassou a esfera do talento musical.
O documentário do Netflix foi produzido pela documentarista norte-americana Liz Garbus. A cineasta teve o apoio da filha da cantora, Lisa Simone Kelly, que dá contundentes depoimentos sobre a relação da artista com o marido violento e fala sobre o ativismo da mãe na causa dos direitos civis. 
Para quem gosta da cantora, a produção surpreende por apresentar o lado mais sombrio da artista sem medo, pois, todo o documentário foi construído a partir de depoimentos de Nina Simone. Quem conhece pouco, vai descobrir um ícone de uma época, que influenciou toda uma geração de músicos. 






What happened, Miss Simone? (2015) - 1h42
Direção: Liz Garbus
Netflix 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Top five: séries inglesas de época

Dora Carvalho

Foi difícil escolher as cinco séries inglesas de época para fazer uma espécie de ranking com as melhores. É lógico que não poderia faltar Downton Abbey, então, só posso tentar eleger mais quatro. Acabo de assistir as duas primeiras temporadas de Mr. Selfridge no Netflix e estou encantada com o enredo, atores, roteiro, cenários, figurinos ... Tudo impecável, leve, divertido e comovente ao mesmo tempo. O que me fez ter vontade de rever três excelentes minisséries produzidas pela BBC: Cranford, Bleak House e Orgulho e Preconceito.

Downton Abbey



Downton Abbey, produzida pela ITV, termina na sexta temporada, que deve estrear na Inglaterra e Estados Unidos no final deste ano. E já deixa saudades. A série alcançou a marca de 10 milhões de expectadores nos episódios de fim de temporada e aqui no Brasil é transmitida pelo canal GNT. O box com a coleção da primeira a quinta temporada também já está disponível nas lojas. No Netflix, tem disponível apenas até a terceira.
A série conta a história dos Crawley, uma família aristocrática inglesa que tenta manter os costumes e tradições de sua classe social – terras, título de nobreza, casamentos arranjados – e se adaptar ao contexto de mudança na sociedade dos anos de 1910 e 1920. Em contrapartida, mostra as aspirações de ascensão dos empregados da casa, que estão em busca de novas oportunidades profissionais, sobretudo as mulheres, que tentam se firmar como protagonistas de suas vidas. É encantadora a maneira como os roteiristas abordam a temática feminina: a entrada no mercado de trabalho, o direito ao voto e a educação. Apesar do contexto de época, é impossível não se identificar com as lutas das personagens.

Mr. Selfridge


Mr. Selfridge foi uma ótima surpresa em 2015 e, apesar de diversas indicações de amigos, demorei para começar a ver. A série conta a história de Harry Gordon Selfridge (interpretado por Jeremy Piven, que está excelente no papel), fundador da loja de departamentos londrina Selfridge’s. Em 1909, o comerciante norte-americano chega a Inglaterra disposto a fundar a maior loja de artigos de luxo da Europa. Londres era uma capital efervescente, mas ainda não tinha o glamour das compras de Paris. Selfridge não queria apenas vender roupas, acessórios, perfumes e cosméticos das marcas mais desejadas da época: pretendia inovar na maneira de comercializar esses itens, oferecendo uma atmosfera teatralizada, com ambientação temática e uma experiência de compra inesquecível. Para isso, investia fortemente em publicidade e levava para a loja artistas e personalidades da época. Divertidíssimo ver, por exemplo, atores do cinema mudo que foram famosos no início do século passado ou ainda uma sessão de autógrafos de Sir Arthur Conan Doyle, criador do detetive Sherlock Holmes. O enredo da série é rápido, com resoluções instigantes dos desafios enfrentados pelo empreendedor. Não vejo a hora de assistir a terceira temporada. A atração, segundo a ITV, deve contar a ascensão e decadência do personagem, e terá fim na quarta temporada. A loja, por sua vez, é sucesso até hoje na Oxford Street, em Londres. Assim como Downton Abbey, Mr. Selfridge apresenta os desafios dos empregados da Selfridge’s e a afirmação pessoal e profissional dos personagens da época, que além de buscar ascensão social, tiveram que enfrentar a tragédia da Primeira Guerra Mundial. A produção é baseada no livro Shopping, Seduction & Mr. Selfridge, de Lindy Woodhead (Random House). O DVD com a primeira temporada está previsto para ser lançado ainda neste semestre.

Cranford


Existe uma outra categoria de produções inglesas que não pode ficar de fora: as minisséries. Todas estão disponíveis em DVDs. Quem está esperando a estreia dos seriados no Brasil, pode começar a se divertir com produções de poucos episódios e, como são de época, geralmente são inspiradas em clássicos da literatura britânica. Uma delas é Cranford (2007), adaptação da obra da escritora Elizabeth Gaskell. Só tenho uma coisa a dizer sobre essa produção: se você gosta de séries inglesas, corra para assistir. É uma comédia de costumes de época estrelada pelas melhores atrizes do teatro inglês: Judi Dench (007), Eileen Atkins (Magia ao Luar), Julia Mackenzie (dos filmes das histórias de Agatha Christie), Imelda Stauton (a terrível professora Dolores Umbridge, de Harry Potter – quem esquece?). Os moradores do minúsculo vilarejo de Cranford tentam se adaptar às inovações da medicina com a chegada de um novo e arrojado doutor no local, assim como a aceleração do ritmo de vida, provocado pela inauguração da linha férrea e uma estação de trem na vila.

Bleak House


O tom sombrio e soturno de Bleak House, de Charles Dickens, se faz presente nesta produção da BBC de mesmo nome, produzida em 2005. Em 15 episódios de pouco menos de meia hora cada um, o enredo tem como ponto de partida a morte de um homem misterioso e se desenrola para contar um mistério que envolve uma linda aristocrata. O contexto histórico é o sistema judiciário britânico, que Dickens acusava, na época, de ser moroso demais. A ganância dos envolvidos no processo judicial Jarndyce versus Jarndyce, que se prolongava por gerações, e a loucura são os pontos trágicos da trama que, chega um certo momento, fica impossível de largar. Destaque para a impecável participação de Gillian Anderson (Arquivo X) no papel de Lady Deadlock: até esquecemos que a atriz é americana, tamanha a perfeição do sotaque e impostação britânicos.

Orgulho e Preconceito



Acho que a minissérie Orgulho e Preconceito sempre vai estar em uma lista desse tipo. Foi a primeira produção da TV inglesa a alcançar sucesso estrondoso fora da ilha e ainda por cima levou Colin Firth (Kingsman, O discurso do rei) ao sucesso. A série dispensa apresentações por ser uma adaptação do livro de Jane Austen. Apenas pode-se dizer que o alto grau de fidelidade em relação ao livro é um dos grandes méritos da trama para a TV que, ainda assim, consegue ter a agilidade suficiente para atrair novos públicos. No papel de Lizzie Bennet, está a inesquecível interpretação da atriz Jennifer Ehle, que ganhou um Bafta por sua atuação. A produção é antiga, de 1995, mas não perde a atualidade, graças à qualidade de produção da BBC. Antes que me perguntem: a série é muito melhor que o filme de Joe Wright (2005), estrelado pela Keira Knightley.


Se essas séries são as cinco melhores, só assistindo para saber. Aproveite para ver os atores britânicos consagrados arrasando em suas atuações. E os mais jovens, que tinham pequenos papéis, mas já eram ótimas promessas, e hoje fazem sucesso em produções de destaque do cinema e séries de grande apelo de público, como Game of Thrones.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O replicante de Blade Runner e a velhice

Por Vilma Pavani

Minha infância, no interior paulista, foi povoada de velhos. Penso nos meus vizinhos e não consigo lembrar de uma casa onde não houvesse um avô ou avó pelo menos. Ou uma tia solteirona. Era comum que mesmo as casas mais pobres tivessem um puxadinho nos fundos para abrigar os agregados. Um irmão do meu avô, com problemas mentais, ficou ao Deus dará com a morte dele, acontecida em outra cidade. Viviam juntos apenas os dois e ninguém queria ficar com o “tio” maluquinho, mas botar em um asilo nem pensar. Fizeram uma reunião, em Marília, onde vivia a maioria da família. Muita conversa vai , muita conversa bem, até que um irmão da minha mãe decidiu-se: “Se o problema é um lugar pra dormir e um prato de comida, deixem que eu resolvo”. E lá se foi o Cesário, barulhento, já velhusco, às vezes teimoso feito uma mula mas quase o tempo todo um tipo alegre e sociável, morar em uma edícula nos fundos da casa do meu tio, onde viveu por mais dez ou quinze anos, de modo decente e confortável. Cesário tinha coisas de menino, aparecia na casa da gente falando alto e se enfiando na mesa na hora do almoço, e muitas vezes queria ser útil e bagunçava mais do que ajudava. Aporrinhava, sim, mas resmungávamos e ficava por isso mesmo.

E nos fundos do meu quintal havia uma espécie de vilinha onde só viviam japoneses. Eles mantinham seus velhos (e como tinha japonês velho!) em casa: eles eram reservados e muitas vezes malcriados com as noras, genros e netos, mas ninguém dava um pio contra eles – ao menos em voz alta.
Tive uma tia que acabou internada num asilo, irmã de meu pai, mas era uma pessoa meio louca, imprevisível, com momentos agressivos. As freiras que tomavam conta do lugar avisavam meu pai durante as crises e lá ia ele, duas, três vezes na semana, visitar tia Maria. Como ele fazia não sei, mas conseguia acalmá-la e ainda achava tempo para consertar telhados e móveis da instituição. Minha mãe brincava dizendo que só Jesus estava acima dele entre as religiosas.
Perdi a avó paterna aos cinco anos, pouco lembro dela. Mas morou com meus pais, claro, desde que ficou viúva, até morrer. Baixota, magra e ignorante, como a maioria dos imigrantes italianos que vieram do campo, tinha modos ditatoriais e minha mãe deve ter sofrido nas mãos dela, pelo pouco que sei. Já minha avó materna era uma mulherona falante, gorda e alta, fofoqueira pra dedeu. Hoje posso dizer que era uma “avó itinerante”: teve sete filhos e vivia na casa de cada um pelo tempo que lhe convinha, ficando às vezes dois e às vezes até seis meses. Os filhos, genros e noras suspiravam conformados quando ela comunicava (sem nunca pedir permissão) que ia chegar, de mala e cuia. Aliás, nem tinha cuia, apenas carregava suas coisas pessoais. Os filhos que cuidassem de alimentá-la, arrumar médico, dentista, cabeleireira. Eu a detestava por conta da língua maligna e grudava no meu pai: onde ele ia (para fugir dela), eu ia atrás. Mas ele aguentava o tranco; afinal minha mãe também tinha aguentado a parte dela com a sogra.

Cresci sabendo que tinha de respeitar essas convenções. Mamãe, que nunca quis morar com ninguém depois de viúva, foi diariamente visitada pelo meu irmão e/ou cunhada até o fim da vida. Minhas duas irmãs e eu tínhamos vindo embora para São Paulo, mas sempre havia uma de nós na casa dela, em férias, feriados, natais.

Particularmente, só depois dos 50 anos me dei conta de que também estava ficando velha. Sem filhos, não teria ninguém para cuidar de mim. No fundo, até achava que se preciso meus irmãos dariam um jeito, me colocariam em algum lugar. Mas parecia um universo tão distante ... Velhice era coisa pros outros, não para mim.
Por sinal sempre achei graça na tia de uma amiga, velhinha de mais de 80, muito econômica, e que quando lhe diziam que devia gastar um pouco mais, viajar, jogar bingo, sei lá, aproveitar a vida, respondia: “Não posso, estou guardando para minha velhice”.

Ultimamente, tenho visto muitos velhos – até porque eles são a minha geração, oras – e muitos vivem sozinhos ou mesmo se tornaram mantenedores de filhos e netos. Triste realidade a nossa... São em geral tratados como estorvo, mesmo quando suas economias ajudam a sustentar escolinhas e o lazer das crianças. Felizmente, também há aqueles que continuam ativos, depois dos 60 ou 70, trabalhando e se virando por si próprios. Fazem cursos, se distraem, nem que seja indo ao médico! Esses são felizardos.
No meu caso, como sempre trabalhei, não me dei conta de que a idade batia à porta. Mas em algum momento tive de cair na real. Hoje, com 66, observo as pessoas no metrô, na rua, no cinema, buscando a minha “turma”;  e a não ser no caso dos visivelmente ricos, vejo que a qualidade de vida dos idosos mudou bastante – no meu entender, pelo lado “humano”, para pior. Ninguém tem muito tempo para eles. Não vejo filhos e netos acompanhando-os. Também fico de olho na minha vizinhança, e raramente vejo velhos morando com a família. Pela primeira vez, sinto receio. Não da morte, mas de como viver até lá sem ser estorvo. Tudo que quero – olha a ironia – ... é morrer “saudável”, isto é, ir embora de repente, sem tempo nem pra dar tchau a quem fica. Pavor de ficar entrevada numa cama, incapacitada de locomoção, ou pior, nas trevas do Alzheimer. Tenho pena dos velhos, como tenho dos cães e gatos abandonados.
Penso sempre no filme “Blade Runner, O Caçador de Androides”, em que um grupo seleto de replicantes se revolta por conta suas vidas breves, com prazo determinado de validade. No final, o líder deles, Rutger Hauer, uma figura magnífica, no auge de sua beleza e masculinidade, se conforma com a morte , mesmo sem concordar com ela. E sua tristeza fica clara numa breve fala, diante do seu “caçador”, Harrison Ford (também num de seus momentos máximos) e cujo conteúdo jamais esquecerei. Ele diz assim: “Eu vi coisas que vocês não acreditariam. Um ataque de naves em chamas no Cinturão de Orion. O brilho de raios-C na escuridão, perto do portão de Tannhauser. E todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. É hora de morrer”. E morre mesmo. Chorei e choro sempre que vejo a cena.

Bem, mas na época em que vi o filme (de 1982) eu entendia o replicante: tanto conhecimento e morrer assim, tão cedo, bestamente, parecia horrível. Mas hoje leio as notícias, olho as pessoas à minha volta, com suas vidas pela frente, em um mundo que só se complica conforme amadurecemos, e não entendo porque fazemos questão de viver além de certo tempo, ou ter esperança de passar adiante o que aprendemos e vivemos. Quem se importa?
Lá pelas tantas a gente sabe que nada de muito fundamental vai mesmo acontecer conosco. Francamente, bem que eu gostaria de poder decidir e, de livre e espontânea vontade, olhar um dia para um ponto qualquer na noite e dizer: “Hora de morrer.” Quem sabe brilhar por um momento e fim.


A cena final 



 Blade Runner - O caçador de Andróides - 1h57
 Direção: Ridley Scott


Vilma Pavani é jornalista, está ficando uma velhota ranzinza e acha que existem basicamente dois prazeres na vida ao ver um filme: falar bem ou falar muito mal!

"Velho, mas não obsoleto"

Por Vilma Pavani 

O título acima vem de uma frase dita mais de uma vez por Arnold Schwarzenegger em seu novo filme,  O exterminador do futuro – Gênesis (2015), que está estourando nas bilheterias nacionais e internacionais. E além de se juntar a outros slogans que prometem ficar (tal como “I’ll be back” ou “Hasta la vista””), é uma descrição perfeita desse brutamontes que no último dia 30 de julho fez 67 anos. Nascido na Áustria, Schwarzenegger, ator que beira o abaixo da crítica, é um ex-fisiculturista, cinco vezes Mister Universo, ator, empresário e político– foi o 38º governador do estado da Califórnia, eleito  em 2003. Além do mais, burro é que não é mesmo: li certa vez que ele colecionava obras de arte e quando lhe perguntavam porque não investir em ativos financeiros, respondeu algo assim: “É muito mais agradável olhar para meu dinheiro e usufruir dele pendurado nas paredes”. Virei fã de carteirinha.

Recentemente, o ator esteve no Brasil para divulgar o novo fime e  fez uma promessa durante entrevista ao G1: atuará em filmes de ação “até morrer”. O exterminador do futuro – Gênesis, seu quarto como o cyborg que protagoniza a franquia, está nos cinemas brasileiros e quem for vê-lo notará  que  está em ótima condição física, e lembrem que sua primeira vez no pape foi há 30 anos!

Foram três filmes na sequência (ele só não atuou em um deles, porque estava ocupado governando a Califórnia, para o bem ou para o mal). Ao todo, a franquia arrecadou até hoje mais de US$ 1 bilhão em bilheteria. OK, o filme tinha a ótima direção de James Cameron (o competente mas chato diretor de Titanic e Avatar), mas aposto todos os meus milhões de dólares que sem Arnold a coisa não teria ido tão longe. O jeito canastrão, a cara de robô inexpressivo, a grandeza de não tentar “atuar” (a pior coisa do mundo é ator ruim tentando  parecer bom – vide Sylvester Stallone) e um quase inexplicável carisma atraem o público feito água.
Bom, até agora não abri o bico sobre o novo filme, que fui ver no fim de semana passado. Mas me poupem, não me digam que alguém quer mesmo saber o que a a crítica pensa do filme. O negócio é sentar numa boa cadeira (de preferência no Shopping Vila Olímpia, com aquele espaços enormes entre os ocupantes, de forma que  você não ouve bem o que os babacas ao seu lado comentam), esticar as pernas e se divertir, com as caras e olhares tortos do cyborg , com algumas piadinhas irresistíveis. Se os outros atores estão bem? Sei lá, quem vai prestar atenção numa mocinha boboca e num rapagão esforçado? Queremos é ver Mr Arnold em cena! Velho, sim, mas não obsoleto, oras.

Voltemos, pois, à carreira incrível desse cara, que começou a se destacar em  1977 com o documentário sobre o concurso de Mr. Universo, O Homem dos Músculos de Aço. Em 1982, ganhou sua chance no filme Conan - O Bárbaro (em que  tem meia dúzia de falas, bem ruins aliás, mas faturou mais de 100 milhões de dólares e gerou a sequência Conan - O Destruidor). Veio então O Exterminador do Futuro e o resto é história. Fez um monte de  filmes de ação: Comando para Matar, Predador Inferno Vermelho, O vingador do Futuro  etc etc (com muita porcaria no meio deles) e até comédias, como Um Tira no Jardim de Infância e Irmãos Gêmeos, além do delicioso True Lies, com a fantástica Jamie Lee Curtis. Dizem que fez também um filme de zumbis, mas este eu não vi, que afinal não sou cyborg.
Na coluna anterior, eu estava meio chateada com a situação dos nossos velhos (inclusive a minha) e temo ter sido um pouco amarga. Quando penso em Arnold Schwarzenegger , ou na série Grace and Frankie,  reconsidero. E lembro o velho chavão sobre certos vinhos, que ficam bem melhores com o tempo. Viva a veiarada que sabe se atualizar!





O Exterminador do Futuro: Gênesis - 2h06 (2015)
Direção: Alan Taylor


Vilma Pavani é jornalista e não perde um filme de Arnold Schwarzenegger se possível – ou no cinema ou na TV. Se alguém duvida, pergunte-me sobre um filme chamado Cactus Jack, O Vilão, bizarríssimo, de 1979, em que ele faz um xerife bobão e atua com nada menos que Candice Bergen e Kirk Douglas. Só Deus sabe como foram parar lá! Ganha um pirulito quem viu!

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Hugh Jackman: cada dia melhor e em duas versões

Por Dora Carvalho

Quem me conhece bem já sabe que Hugh Jackman é um dos meus “queridinhos”. Acompanho a carreira do ator desde o filme Swordfish: a senha (2001/Dominic Sena). Filme fraquinho, eu sei, porém, o ator australiano, pelo menos para mim, já prometia. Artista super dedicado, aos poucos, Jackman foi conquistando Hollywood e emplacando um sucesso após o outro. Além de ficar super popular com o personagem Wolverine na saga X-Men (2014), ganhando filme próprio (2013/Wolverine-Imorta/James Mangold), finalmente recebeu um Oscar - merecidíssimo - por sua atuação em Os miseráveis (2012/Tom Hopper).

Neste ano, Jackman, que está com 46 anos, surpreende em dois filmes, com visual completamente diferente um do outro. Na última semana, saiu o novo trailer de Pan (outubro/2015/Joe Wright), que reconta a história do clássico Peter Pan do dramaturgo J.M. Barrie, publicada em 1911. Jackman será Barba-Negra e está quase irreconhecível na figura do personagem pirata.




Em Chappie, Jackman interpreta o engenheiro Vincent, interessado em sabotar um ambicioso projeto de criação de robôs na África do Sul, que irão substituir a força policial local. O filme já está disponível para locação via streaming: