Mostrando postagens com marcador Denis Villeneuve. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Denis Villeneuve. Mostrar todas as postagens

domingo, 8 de outubro de 2017

Blader Runner – 2049 fecha o ano do sci-fi

 Por Dora Carvalho


Quando ouvimos que um diretor pretende trazer de volta um sucesso do cinema do passado, a tendência é a desconfiança. Não foi diferente com Blade Runner – 2049, assim que os primeiros rumores sobre as filmagens começaram a pipocar aqui e ali. Mas, ao saber que a direção ficaria com Denis Villeneuve e que o produtor seria Ridley Scott, as expectativas do renascimento de um grande clássico do cinema só aumentaram.
Blade Runner – O caçador de andróides (1982) é o ponto de partida para uma safra de filmes de ficção científica em que a luta entre o bem e o mal começa a ficar em segundo plano em filmes do gênero e as discussões giram em torno sobre o que deu de tão errado no sonho do super desenvolvimento humano; a tecnologia não é mais aliada da humanidade, ao contrário, torna-se um reflexo da decadência de uma sociedade. Dirigido por Ridley Scott, quando estreou nos cinemas, foi pouco compreendido e um fracasso de bilheteria nos Estados Unidos. Há muita polêmica em torno do filme, já que à epoca os estudios quiseram amenizar aspectos mais densos do filme e mudaram até cortes e as cores de algumas cenas. Só em 1992, Scott lançou o DVD com “a versão do diretor” e, em 2005, foi lançada uma caixa com quatro versões do longa, incluindo a apresentada em festivais. O fato é que Blade Runner, aos poucos, foi ganhando contornos de filme cult e hoje é considerado um dos melhores do gênero sci-fi.
Baseado no romance “Andróides sonham com ovelhas elétricas”, de Philip K. Dick, publicado originalmente em 1968, portanto, prestes a completar 50 anos, contempla alguns aspectos do enredo do livro. O filme tem no elenco Harrison Ford, que fazia o detetive Deckard, encarregado de caçar e “aposentar” quatro andróides desertores, os chamados Replicantes, de uma geração de robôs chamada de Nexus 6. Após uma rebelião, esses robôs começaram a ser eliminados. O único objetivo dessas criaturas sofisticadas e a mais próxima possível de um ser humano era ter mais tempo de vida. A atriz Daryl Hannah e o ator Hutger Hauer eram a personificação dessa beleza e perfeição robótica. Hauer faz uma das cenas mais lindas e filosóficas do cinema ao final do filme.
Mas por quê Blade Runner agora é considerado um filme tão bom? Para a época, não era comum a mistura de gêneros estéticos a que Ridley Scott se propôs: o longa tem um aspecto retrofuturista. Apesar de ser ambientado em 2019, a estética adotada era dos filmes noir. É uma mistura de toda ambientação futurista – prédios, luzes, anúncios holográficos e luminosos que lembra Shibuya, bairro de Tóquio, com um clima anos 50 – chuva constante (no caso aqui, chuva ácida, devido à poluição), figurino de Sean Young, par romântico de Harrison Ford, um detetive decadente e bem característico do gênero noir, e um certo sentimento de Guerra Fria que ainda pairava no mundo no início dos anos 80.  É uma mistura difícil de ser compreendida naquele momento, mas que deu origem a outras obras do tipo e, aos poucos, o público foi percebendo a grandeza do filme. E ainda tinha a belíssima trilha sonora assinada por Vangelis, absolutamente inesquecível.
E agora, onde Denis Villeneuve acertou? Em primeiro lugar, em não tentar fazer um remake ou reboot do original. Ao contrário, tenta explorar outros aspectos do romance de Philip K. Dick que não foram contemplados no primeiro filme. Mas teve a inteligência de não desagradar os fãs do filme de 1982, utilizando-se de diversas referências ao longa de Ridley Scott, para homenagear e ao mesmo tempo contextualizar o espectador. Villeneuve foi sutil em colocar sua própria assinatura e quem acompanha outros trabalhos do diretor logo vai perceber isso. Dá para perceber os planos super abertos, a grandiosidade das tomadas que se alternam com o foco fechado no rosto dos atores. Outro ponto positivo foi o fato de o diretor evitar o didatismo e excesso de explicações para quem não assistiu o primeiro filme. Isso torna o longa único para quem tem acesso ao enredo pela primeira vez. Mas, sobretudo, por também não ser um filme que só se utiliza de efeitos especiais. Fica evidente que a tecnologia cinematográfica é utilizada para torná-la uma intensa experiência estética de cinema e o espectador sai da sala sabendo que viu um filme marcante.
Ryan Gosling e Robin Wright estão bem no filme, mas é lógico que a aparição do próprio Harrison Ford dá uma reviravolta na história e a trama se torna mais intensa até o ápice. Duas coisas que faltaram: talvez um vilão mais contundente – Jared Leto, embora ótimo, talvez tenha ficado mais com ares de Jedi do que de vilão. E, para quem viu o primeiro filme, há uma certa expectativa de um final apoteótico. O cuidado de Villeneuve em todo 2049 não resultou em um final surpreendente. Mas o filme surpreende sim por todo o conjunto e merece ser visto na tela grande. Um dos poucos que vale sim assistir em 3D.

Denis Villeneuve acertou em cheio com o filme “A chegada”, um dos melhores de ficção científica do ano. E termina 2017 com outro grande êxito. É para ficar de olho nesse diretor, que promete, até o momento, ser um dos grandes.




sábado, 3 de dezembro de 2016

Dois filmes para quem adora ciência

Por Dora Carvalho

A chegada

Sem muito alarde inicial, o filme A chegada, dirigido por Denis Villeneuve, é, sem dúvida, uma das grandes surpresas do ano do gênero ficção científica. Roteiro, ritmo, fotografia, direção de atores e, sobretudo, a interpretação de Amy Adams, que protagoniza o filme na pele de uma especialista em linguística, constroem um novo tipo de sci-fi para a tela grande. Há todos os elementos de mistério de uma narrativa típica do gênero: alienígenas chegam a Terra sem barulho, sem ameaças, em 12 casulos que pairam no ar em 12 locais diferentes do planeta, gerando pânico, declarações de guerra e a iminência de um conflito global. Tudo isso simplesmente porque ninguém entende o porquê da presença dessas criaturas.
A dra. Louise Banks, vivida por Amy Adams, é uma das poucas capazes de construir pontes linguísticas que iniciam um processo de interação com os estranhos seres. A beleza do filme e do roteiro está na maneira como é feita essa construção. Villeneuve e o roteirista Eric Heisserer criam então um enredo de ficção científica que trata do que nos faz essencialmente humanos, sobre as incertezas em relação ao tempo que temos neste planeta e sobre uma contagem de tempo não linear. A maneira como expressamos ideias, sentimentos, sonhamos e percebemos o mundo é colocada em uma perspectiva de reaprendizado, afinal, como nos apresentaríamos para uma criatura de outro planeta? Como uma criança percebe o mundo?
O filme é baseado no conto de Ted Chiang, que tem como título original “Story of your life”. O ponto de partida a hipótese de Sapir-Whorf que, resumidamente, indica que a linguagem que usamos determina a maneira como pensamos.
O filme A chegada tem ainda Jeremy Renner e Forrest Whitaker. Embora estejam bem em seus papéis, o foco é na personagem de Amy Adams, que faz com que o espectador participe da história por meio de suas descobertas e leva quem assiste a sentir todo o processo de descoberta que a personagem está passando. Há muitas comparações sendo feitas com outras referências no gênero: 2001 – uma odisseia no espaço (Stanley Kubrick), Interestelar (Christopher Nolan), A árvore da vida (Terrence Malick) etc. A chegada é singular na maneira como humaniza as questões científicas mais básicas, como as dúvidas em relação a espaço-tempo, o quanto uma civilização pode alcançar em termos tecnológicos e a capacidade humana de lidar com os avanços do conhecimento sem criar uma corrida armamentista. É um roteiro que está muito mais para Isaac Asimov do que para possíveis homenagens a outros cineastas, é muito mais literário nas questões que aborda do que em termos de pretensão visual, embora seja um filme belíssimo. É uma narrativa simples, de entretenimento, mas que eleva a ficção científica a um patamar diferente, capaz de agradar tanto fãs do gênero quanto a desavisados ou quem está apenas em busca de uma história bem contada.





O homem que viu o infinito

Srinivasa Alyangar Ramanujan foi uma matemático indiano que, após uma infância difícil em Madras, na Índia, teve a oportunidade de apresentar a genialidade das descobertas que fez na Matemática na Universidade de Cambridge, Inglaterra, no período da Primeira Guerra Mundial. Desacreditado por outros acadêmicos por não ter uma formação convencional, foi obrigado a ultrapassar o preconceito e as formalidades acadêmicas para provar as teorias numéricas, séries infinitas, frações, dentre outras descobertas.
O filme de Matthew Brown – O homem que viu o infinito – é a bela cinebiografia do matemático indiano, interpretado pelo carismático Dev Patel. O ator faz uma fabulosa parceria com Jeremy Irons no longa, que vive o acadêmico Godfrey Harold Hardy, um defensor da beleza estética da matemática pura. O destaque do filme é sem dúvida as descobertas do protagonista, porém, o contexto social da época assim como as diferenças culturais, que determinam a maneira como se constrói conhecimento científico, é apresentado por meio das interpretações de Patel e Irons – um é jovem e entusiasta da difusão do conhecimento puro e simples, enquanto o professor mais velho fica entre a necessidade de inovação e o rigor da academia. O filme ficou em cartaz apenas no mês de outubro nos cinemas, mas acaba de ser lançado no Netflix.