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sábado, 3 de dezembro de 2016

Dois filmes para quem adora ciência

Por Dora Carvalho

A chegada

Sem muito alarde inicial, o filme A chegada, dirigido por Denis Villeneuve, é, sem dúvida, uma das grandes surpresas do ano do gênero ficção científica. Roteiro, ritmo, fotografia, direção de atores e, sobretudo, a interpretação de Amy Adams, que protagoniza o filme na pele de uma especialista em linguística, constroem um novo tipo de sci-fi para a tela grande. Há todos os elementos de mistério de uma narrativa típica do gênero: alienígenas chegam a Terra sem barulho, sem ameaças, em 12 casulos que pairam no ar em 12 locais diferentes do planeta, gerando pânico, declarações de guerra e a iminência de um conflito global. Tudo isso simplesmente porque ninguém entende o porquê da presença dessas criaturas.
A dra. Louise Banks, vivida por Amy Adams, é uma das poucas capazes de construir pontes linguísticas que iniciam um processo de interação com os estranhos seres. A beleza do filme e do roteiro está na maneira como é feita essa construção. Villeneuve e o roteirista Eric Heisserer criam então um enredo de ficção científica que trata do que nos faz essencialmente humanos, sobre as incertezas em relação ao tempo que temos neste planeta e sobre uma contagem de tempo não linear. A maneira como expressamos ideias, sentimentos, sonhamos e percebemos o mundo é colocada em uma perspectiva de reaprendizado, afinal, como nos apresentaríamos para uma criatura de outro planeta? Como uma criança percebe o mundo?
O filme é baseado no conto de Ted Chiang, que tem como título original “Story of your life”. O ponto de partida a hipótese de Sapir-Whorf que, resumidamente, indica que a linguagem que usamos determina a maneira como pensamos.
O filme A chegada tem ainda Jeremy Renner e Forrest Whitaker. Embora estejam bem em seus papéis, o foco é na personagem de Amy Adams, que faz com que o espectador participe da história por meio de suas descobertas e leva quem assiste a sentir todo o processo de descoberta que a personagem está passando. Há muitas comparações sendo feitas com outras referências no gênero: 2001 – uma odisseia no espaço (Stanley Kubrick), Interestelar (Christopher Nolan), A árvore da vida (Terrence Malick) etc. A chegada é singular na maneira como humaniza as questões científicas mais básicas, como as dúvidas em relação a espaço-tempo, o quanto uma civilização pode alcançar em termos tecnológicos e a capacidade humana de lidar com os avanços do conhecimento sem criar uma corrida armamentista. É um roteiro que está muito mais para Isaac Asimov do que para possíveis homenagens a outros cineastas, é muito mais literário nas questões que aborda do que em termos de pretensão visual, embora seja um filme belíssimo. É uma narrativa simples, de entretenimento, mas que eleva a ficção científica a um patamar diferente, capaz de agradar tanto fãs do gênero quanto a desavisados ou quem está apenas em busca de uma história bem contada.





O homem que viu o infinito

Srinivasa Alyangar Ramanujan foi uma matemático indiano que, após uma infância difícil em Madras, na Índia, teve a oportunidade de apresentar a genialidade das descobertas que fez na Matemática na Universidade de Cambridge, Inglaterra, no período da Primeira Guerra Mundial. Desacreditado por outros acadêmicos por não ter uma formação convencional, foi obrigado a ultrapassar o preconceito e as formalidades acadêmicas para provar as teorias numéricas, séries infinitas, frações, dentre outras descobertas.
O filme de Matthew Brown – O homem que viu o infinito – é a bela cinebiografia do matemático indiano, interpretado pelo carismático Dev Patel. O ator faz uma fabulosa parceria com Jeremy Irons no longa, que vive o acadêmico Godfrey Harold Hardy, um defensor da beleza estética da matemática pura. O destaque do filme é sem dúvida as descobertas do protagonista, porém, o contexto social da época assim como as diferenças culturais, que determinam a maneira como se constrói conhecimento científico, é apresentado por meio das interpretações de Patel e Irons – um é jovem e entusiasta da difusão do conhecimento puro e simples, enquanto o professor mais velho fica entre a necessidade de inovação e o rigor da academia. O filme ficou em cartaz apenas no mês de outubro nos cinemas, mas acaba de ser lançado no Netflix.








sexta-feira, 17 de julho de 2015

Quando a Inglaterra se une a Bollywood: O Exótico Hotel Marigold 2

Por Dora Carvalho

Três palavrinhas para o filme O Exótico Hotel Marigold 2 – imperdível, inesperado e surpreendente. Quando vi o trailer do primeiro filme e o elenco, mal pude acreditar que estava ali uma produção que reunia Maggie Smith e Penelope Wilton (Downton Abbey), Bill Nighy (Simplesmente Amor) e Judi Dench (Philomena).
Nesta segunda edição da história, o diretor John Madden (Shakespeare Apaixonado) não apenas repetiu esse elenco estrelado como convidou Richard Gere (Noites de Tormenta) para integrar a continuação da trama ambientada em um local que também poderia ser chamado de Fabuloso Hotel Marigold.
Tanto o primeiro filme quanto o segundo tem como protagonista Dev Patel (O último mestre do ar), que interpreta Sonny Kapoor, um entusiasmado e ambicioso dono de uma propriedade decadente na Índia, que sonha em transformá-la em um elegante hotel para idosos que estão próximos de atingir “a grande ascensão”, nas palavras do personagem. Um local em um país quente e exótico, pronto para receber idosos de várias partes do mundo, que não querem terminar a vida em enfadonhos eventos de família, cuidando de netos ou asilos convencionais. E, por que não, prontos para uma última grande aventura na vida do outro lado do planeta. A história é baseadas em livro de título homônimo da escritora e roteirista britânica Deborah Moggach.
A atuação de Patel nos dois filmes é simplesmente adorável. O ator, que tem 25 anos, passeia entre gigantes do cinema e teatro britânico com vigor e ao mesmo tempo com a harmonia necessária para atuar ao lado de atores tão experientes. E o enredo também ajuda. As histórias de cada um dos personagens vão se entrelaçando aos poucos, assim como no primeiro filme, seus dramas, problemas da idade madura, assim como a busca de novos desafios profissionais, amores e aventuras. Diálogos engraçados ou tipicamente de humor negro inglês, já que estamos falando de pessoas conscientes da própria finitude, mostram o quanto o diretor e roteirista enxergou nas histórias da vida madura e nos atores que escolheu uma fina expressão das mudanças sociais e comportamentais das pessoas que se recusam a falar em aposentadoria, pijamas e chinelos. Lógico, que o humor britânico ácido ficou por conta de Maggie Smith, a intrépida sócia do Hotel Marigold.
Como diz a personagem Evelyn Evergreen (sobrenome sugestivo, já que a palavra também significa “sempre-viva” ou “perene”): “quantas novas vidas ainda podemos ter”? Quantas quisermos”, ela mesma responde.

Imperdível para quem gosta de cinema inglês e ainda com uma pitada do exotismo indiano, seja na música, no colorido e nos lindos rituais de casamento. Uma mistura perfeita de humor inglês com Bollywood.






Para quem não viu o primeiro filme: 


O Exótico Hotel Marigold 2 (2015) – 2h03
Inglaterra, EUA
Direção: John Madden.

O Exótico Hotel Marigold (2012) - 2h04
Inglaterra
Direção: Johm Madden