segunda-feira, 25 de abril de 2016

Espécie extinta

Por Vilma Pavani

Alguns até se esforçam ou se aproximam. Mas não é fácil. E não adianta dizer que os tempos mudaram, porque mudaram mesmo e não foi, nesse caso, para melhor. Estou falando do charme e do carisma dos galãs dos anos 40 até 70, no máximo. E também não se diga que penso isso porque sou velha, pois nos anos 40 eu nem era nascida e assim mesmo adoro os atores daquela época, com sua elegância, discrição e uma quase arrogante masculinidade, em alguns casos, embora outros primassem pela sutileza. 
Marlon Brando é o grande exemplo: aliava os traços perfeitos a uma rudeza de estilo que as mulheres amavam. Era o macho alfa, que estalava os dedos e a gente ia. Nananinanão, nada de dizer que isso só valia porque as mulheres daquela época eram na maioria submissas. A verdade é que com ele, parecia sexy ser arrastada pelos cabelos, como no tempo das cavernas. E ele bem que sabia lançar aqueles olhares de mormaço quando queria parecer frágil no fundo (mas beeeem no fundo).
Brando era o fetiche feminino por excelência. Mas o homem com que toda mulher queria casar, de acordo com a perspicaz observação das mais famosa crítica de cinema americana, Pauline Kael, era bem diferente: Cary Grant, elegantérrimo, sutil, galante e inteligente. Voz agradável, jeito tranquilo, boas maneiras, pinta de galã mas cara de macho. Creio que nem a Kael sabia quando escreveu o artigo, pois a coisa ficou guardada no fundo do baú por muitos anos, mas Cary Grant era gay, o que precisou esconder por toda a vida, já que naquela época ser gay era incompatível com Hollywood. Foi o caso de outro charmoso da época, Gary Cooper, e de Rock Hudson, todos amados pelas mulheres. Enquanto isso, Tony Curtis, com sua beleza quase feminina e que sempre me pareceu suspeito, foi um dos maiores “ladiesman” de Hollywood, garanhão que hoje é mais conhecido como o pai de Jamie Lee Curtis. 
Quer mais charme do que tinha Humphrey Bogart? Baixinho, feioso e irresistível. Ou ainda Clarck Gable? Se o primeiro era um beberrão e o segundo tinha mau hálito, isso não chegava até as fanzocas. Em compensação, o maravilhoso, fino e inteligente Paul Newman só tinha como defeito ter sido um ótimo marido, ao longo de mais de 50 anos, da sortuda atriz Joanne Woodward.
Bem diferente dele, Frank Sinatra colecionava casamentos e suspiros. E manteve o velho encanto dos olhos azuis até o fim da vida. James Stewart , por seu lado, fazia a linha "séria": passava uma ideia de confiabilidade, estabilidade, sem perder o charme jamais. Quem não gostaria de casar com um homem assim? Além de tudo era educado, aquele tipo que abre a porta do carro e tudo o mais.

Marlon Brando, Cary Grant, Gary Cooper, Rock Hudson, Tony Curtis, Humphrey Bogart, Clarck Gable, Paul Newman e Frank Sinatra


E veja-se que aqui só estamos falando de Hollywood. Porque saindo para o velho continente, tínhamos os franceses Alain Delon, provavelmente o homem mais bonito de seu tempo, Jean Louis Tritignant, com aquele jeito meio intelectual de ser, e o feioso e encantador Jean Paul Belmondo. Sem falar na receita italiana jamais repetida, com o inigualável Marcelo Mastroianni. No Brasil, tivemos Dick Farney e Hélio Souto, galãs que nada ficavam a dever aos de fora.

Hoje só consigo pensar em George Clooney para manter acesa a chama do charme antigo. Provavelmente outros até poderiam ter papel semelhante, como Hugh Jackman ou Henry Cavill, mas estão muito ocupados fazendo super heróis. E convenhamos, por mais legal que seja um super herói, jamais vai abrir a porta para a gente...

Marcelo Mastroianni, Alain Delon, Jean Loius Trintignant, Jean Paul Belmondo, James Stewart, Dick Farney, Helio Souto e George Clooney

domingo, 10 de abril de 2016

Wallander: detetive soturno

Por Dora Carvalho


O Netflix disponibilizou as quatro temporadas do seriado britânico Wallander, estrelado por Kenneth Branagh, para deleite dos fãs da premiada série britânica. Aqui no Brasil foi lançado em DVD apenas a primeira temporada e já está esgotada nas lojas há algum tempo.
A história é inspirada nos livros do escritor sueco Henning Mankell e começou a ser produzida em 2006 pela BBC. De lá para cá, já faturou os prêmios britânicos de drama televisivo seis vezes e um de melhor ator para Branagh.
O ator interpreta Kurt Wallander, personagem de uma série de livros de Mankell, um inspetor que atua na pequena cidade de Ystad, na Suécia. O caráter psicológico da trama e a personalidade do protagonista são os maiores diferenciais do seriado em comparação a outras tramas de detetives, além do fato de os produtores terem decidido por um cenário sueco, para ficar mais próximo do enredo dos livros, em vez de filmar em locações inglesas.
Cada temporada tem três episódios de aproximadamente 1h30 cada um, o que permite um mergulho na história e nas características do personagem. A atuação de Branagh, obviamente, é brilhante e o ator emprestou a Wallander ares de detetive soturno, porém, ligeiramente atrapalhado. Mas isso é só na aparência. O personagem tem relações conturbadas com a família, principalmente com a filha.
O que chama mais atenção logo no primeiro episódio é a beleza e aparente calmaria da pequena cidade de Ystad, que na verdade esconde violência e crimes aterradores.
Em maio, vai ao ar na Inglaterra a temporada final da série. Para quem não viu, agora é assistir as temporadas em maratona. Ou torcer para estrear logo por aqui a última temporada.






domingo, 3 de abril de 2016

Marseille: a disputa pelo poder no sul da França

Por Dora Carvalho

O ator Gerard Depardieu será a estrela da série Marseille – produção original francesa para o Netflix. A trama está sendo chamada de House of Cards francês, por tratar de disputa pelo poder e corrupção na cidade portuária de Marselha, no sul da França.
O enredo vai girar em torno de Robert Taro (Gerard Depardieu), prefeito da cidade de Marselha há 25 anos e que terá que enfrentar novas eleições contra um candidato muito ambicioso (interpretado pelo ator Benoît Magimel).
Depardieu há tempos não faz um trabalho de grande expressão e que tenha chegado ao Brasil com alarde. O ator, que está com 67 anos, pôde ser visto pelo público brasileiro em uma produção recente no comovente Minhas tardes com Margueritte (2011) e em Asterix e Obelix: Ao serviço de sua majestade (2012).
Mas ninguém tem dúvida da força do dramática de Depardieu e, apenas pelo trailer de Marseille, já dá para perceber que o projeto é sensacional.

A estreia mundial é 5 de maio. A temporada inaugural terá oito episódios. A série é dirigida por Dan Franck e é a primeira produção original Netflix realizada pelos franceses. Só posso dizer que a expectativa é altíssima.




sábado, 26 de março de 2016

A grande aposta: como entender o cassino global

Por Dora Carvalho

Não importa se você não entende nada de swaps, subprimes, títulos podres ou classificação de risco BB, BBB+ ou AAA. Se você quer saber como se deu o maior colapso financeiro global, não deixe de assistir o filme A grande aposta (2015).
Dirigido por Adam McKay, diretor com produções inexpressivas e que coloca agora no currículo um longa que, sem dúvida, o deixa em destaque, não apenas por ter recebido a indicação de Oscar de melhor filme e diretor, mas por que de fato é uma história que põe o dedo na ferida e deixa o espectador grudado na cadeira do começo ao fim. Esse era um dos filmes que tinha muita expectativa para este ano e não me decepcionei.
“A grande aposta” a que se refere ao título do filme nada mais é a história real de quatro investidores que conseguiram a façanha de prever o que ninguém “queria ver antes": o grande colapso financeiro de 2008, que culminou na maior crise econômica já registrada na história.
Com um ritmo de documentário e narrado por Ryan Gosling, que faz o papel do investidor Jared Vennet, do Deutsche Bank, o longa começa com a história de Michael Burry (Christian Bale – excelente no papel, não à toa recebeu indicação para o Oscar), um dos primeiros a perceber que o mercado hipotecário norte-americano estava à beira de um salto de inadimplência sem precedentes. Obviamente, ninguém acreditou. Uma série de acontecimentos tão surreais que tornam a realidade excelente para virar um filme de ficção levam os outros investidores a quase que literalmente “farejar” que algo estranho estava acontecendo no mercado.
O enredo segue em ritmo vertiginoso, elevando o suspense ao absurdo, porque já sabemos o que aconteceu de fato – a crise global – mas o roteiro nos leva a querer saber se esses personagens conseguiram aproveitar a grande sacada que tiveram. Os problemas pessoais e a incrível aposta que esses investidores fizeram é colocada no filme de forma a gerar total identificação no espectador: o que você faria no lugar deles? Isso é genial no roteiro, porque, é lógico, parte-se do princípio de que sabemos o final da história. Gera-se então novas maneiras de suspense que prende o espectador de modo que se possa entrar na loucura que foram as decisões tomadas no cassino global que se tornou a economia do planeta. Garotos que tomavam decisões que afetaram a renda e os empregos de milhares de operários, aposentados e pensionistas em todo o mundo. O mais interessante do filme é percebermos que no meio daquele apocalipse quem imaginávamos que sairia perdendo também foram os grandes vencedores.
O elenco estrelado, que tem Brad Pitt, Steve Carrell e Marisa Tomei, tem o mérito de tratar a coisa toda como um grande deboche, tamanho o absurdo das circunstâncias apresentadas ao longo da história e é como de fato aconteceram. A melhor pergunta do filme: “afinal, você é um investidor ou um traficante?”. Outro ponto positivo: não há maniqueísmo – nada de vilões ou mocinhos. Ninguém está interessado em ser legal e sim ganhar o máximo ou perder o menos possível. Mas a história não termina nada bem. E todos sabemos disso.

É lógico que o filme vai gerar ainda mais perguntas. Sugiro então ver o documentário Trabalho Interno (Inside Job/2010), dirigido por Charles Ferguson, vencedor do Oscar de melhor documentário. E veja como é possível ficar muito rico apenas fechando os olhos para a realidade.







domingo, 13 de março de 2016

Mr. Holmes: quando o filme é melhor que o livro

Por Dora Carvalho

São raríssimas as vezes em que um filme consegue superar um livro. Mr. Holmes escrito pelo autor norte-americano Mitch Cullin é um livro promissor logo no início. Promete uma história muito interessante e singular ao recriar um mundo em que o famoso personagem de Arthur Conan Doyle ultrapassa os 90 anos e vive tranquilamente cuidando de abelhas em uma bucólica residência no litoral da Inglaterra.
A história parte da premissa de que Sherlock Holmes deixou um caso sem solução no passado e isso perturba o personagem mesmo quando percebe que está chegando ao fim de sua existência. Mas, ao longo da trama, o livro perde o fôlego e tem um final um tanto decepcionante, situação corrigida no roteiro cinematográfico.
O longa tem a direção de Bill Condon (vencedor do Oscar por Deuses e Monstros/1998 ) e Ian McKellen faz o papel de Mr. Holmes na velhice. O carisma do ator em conjunto com a excelente escolha de coadjuvantes, como Laura Linney, dão o tom do filme.
Nessas horas percebemos o quanto a sétima arte pode enriquecer uma história que tinha tudo para ser boa, mas carece de certa sensibilidade para recriar um personagem tão fixado na memória dos fãs.

Mr Holmes é um filme delicado e, sobretudo, respeitoso à fama do detetive, com certa dose cômica. Tem mistério na dose certa ao mesclar o passado e o presente do personagem, conduzindo o espectador a solucionar o desfecho da trama. Destaque ainda para a excelente trilha sonora assinada por Carter Burwell.  O filme teve muito atraso no lançamento no Brasil e ficou muito pouco tempo em cartaz nos cinemas, mas, felizmente, já está disponível em DVDs e streaming.




domingo, 6 de março de 2016

A garota dinamarquesa merece mais atenção

Por Dora Carvalho

Tom Hooper é um diretor para prestar muita atenção. Ganhador de Oscar em 2011 pelo filme O discurso do rei, causou, à epoca, controvérsias, pois concorria com David Fincher, irmãos Coen, David Russell e Darren Aronofsky e havia uma certa torcida para os filmes A rede social e Cisne Negro.
É certo que O discurso do rei é um excelente filme, redondo, bem executado, mas a polêmica sobre a premiação é válida, pois não é um longa que sugere grandes inovações cinematográficas (embora eu adore o filme, sobretudo por causa da atuação de Colin Firth, também ganhador do Oscar pelo longa). Mas o tempo está mostrando que Hooper é um diretor em ascensão, sem oscilações que diminuam a credibilidade e consistência. O filme A garota dinamarquesa (2015) parece ser a prova disso.
O cineasta tem apenas 44 anos e os primeiros trabalhos mais famosos foram na BBC, em que dirigiu a belíssima série Daniel Deronda (2002), baseada no livro de Mary Ann Evans, que assinava com o pseudônimo de George Eliot.  Também foi responsável pela impecável direção da minissérie John Adams (2008), transmitida pela HBO.
Hooper parece ser um diretor dos novos tempos, cuja versatilidade para TV e cinema acabaram por transformá-lo em alguém que muda as feições do próprio estilo a cada produção. Em A garota dinamarquesa percebe-se a mão minuciosa do diretor, que pincela detalhes, passando pela grande atenção à interpretação dos atores, deixando-os à vontade em cena (isso me parece nítido), além da fotografia sempre lindíssima, assinada por Danny Cohen, que já fez parceria com Hooper nos quatro últimos longas do diretor. Vale destacar ainda os recursos cenográficos e enquadramentos que sugerem ora amplitude ora foco, em pequenos instantes de aparente insignificância para trama, que depois saltam aos olhos para fazer toda a diferença no enredo.
O longa A garota dinamarquesa conta o drama vivido pelo pintor Einer Weneger/Lili Elbe (interpretado pelo ator Eddie Redmayne), primeiro na história a se submeter à cirurgia de mudança de sexo. Weneger foi casado com a também artista plástica Gerda Weneger, que o apoiou no processo de mudança. O foco do filme é a descoberta do artista como mulher e o relacionamento com a esposa. Há muitas divergências quanto a acuidade histórica, pois o filme é apenas inspirado no livro de título homônimo escrito por David Ebershoff. 
A belíssima fotografia e a maneira como a luz é aproveitada mostra claramente que se trata de um universo de artistas plásticos e do olhar desses personagens em relação ao mundo, sempre a procura da melhor luminosidade, ângulo e a captura de uma essência para as coisas e nos leva, pouco a pouco no enredo, a também procurar a essência dos personagens. 
A história se passa nos final dos anos 20, o belíssimo período da explosão das artes plásticas na Europa e o filme, sem dúvida, resgata isso, com cenas que lembram uma pintura impressionista.
Mas o que chama a atenção realmente é o fato de, mais uma vez, Tom Hooper ser responsável por uma produção notável, que merecia ter tido mais atenção por parte da Academia de Cinema, com mais indicações.
Sem dúvida, não é apenas um drama comovente. É uma história que alerta para o fato de que, ainda hoje, com tantas inovações na Medicina, e após tantas décadas, ainda é um tema tratado com absoluto descaso. A interpretação de tirar o fôlego de Eddie Redmayne, que também merecida o Oscar, e de Alicia Vikander (que ganhou a premiação na categoria atriz coadjuvante) nos leva a uma série de questionamentos. Preste atenção no diretor. E também fique atento à mensagem do filme.






sábado, 27 de fevereiro de 2016

Doc Martin, um House à beira mar

Por Vilma Pavani

Durante um bom tempo acompanhei pelo canal Film & Arts a série britânica Doc Martin, uma das mais deliciosas comédias dramáticas que já vi. E agora ela chega à Netflix com suas seis temporadas – abrangendo o período de 2004 a 2013 e com uma sétima e provavelmente última temporada que só foi retomada em 2015. Foi um grande sucesso na Inglaterra, onde o ator principal, Martin Clunes, além de tudo é muito bem visto como apresentador de vários documentários sobre a vida animal e sobre as ilhas do Reino Unido.

Cirurgião de sucesso que precisou abandonar a profissão após desenvolver uma fobia por sangue, o médico Martin Ellingham (Clunes) acaba decidindo morar no vilarejo de Portwenn (o lugar real, uma vila de pescadores, fica em Port Isaac, na Cornualha, e é tão bonito que se tornou um procurado  destino turístico com o seriado), trabalhando como clínico geral. Mas além das circunstâncias estranhas de sua mudança de carreira, Doc Martin, como é chamado pelos locais, é um homem muito complicado, que tem dificuldades sérias de compreender e expressar sentimentos, muitas vezes ofendendo as pessoas com sua sinceridade absoluta. Pode-se dizer que é um House sem hospital. E é claro que precisa de um grande esforço para conviver com a população local.

Certo que os habitantes de Portwenn são muitas vezes tão excêntricos quanto o médico e o típico humor inglês faz com que tudo se torne eventualmente bizarro. Vale a pena conferir os vários personagens da trama, que incluem a professora local vivida por Caroline Catz (a mais “normal” de todas), que se torna o interesse romântico (na medida do possível) do médico e a destemperada atendente do consultório, Jessica Ramson, entre outras. Se você gosta de humor inglês e de um roteiro engraçado e inteligente, não perca a série. Se não gosta, azar seu...



Vilma Pavani é jornalista, detesta médicos e quer ser tratada pelo House ou Doc Martin em caso de necessidade.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Trumbo, a caçada às bruxas nos anos 50

Por Vilma Pavani

Diferentemente de O Regresso, o filme Trumbo não tem nada de extraordinário visualmente. Pelo contrário, é um filme quadradinho, com muitos diálogos (ótimos, por sinal), tudo bem papai-mamãe, com começo, meio e fim e que tem como principal apelo o seu pano de fundo, a histeria anticomunista dos anos 50 nos Estados Unidos e que deu origem à odiosa “lista negra”, que impediu dezenas de atores, roteiristas e diretores de trabalhar em Hollywood por serem ligados ou tidos como simpatizantes do Partido Comunista.
Primeiro, minha gente, vamos lá: comunista americano era no máximo cor de rosa. Na maioria eram antinazistas que apoiaram a União Soviética em sua luta contra Hitler. Depois, quando os EUA ficam “de mal” com a URSS, todos os que apoiaram a causa deveriam, na cabeça de um grupo de parlamentares e líderes em várias áreas, de também endemoninhar os ex-aliados. Felizmente, a questão da liberdade de expressão é um apelo muito forte desde os primórdios da vida americana, e a resistência, embora tímida a princípio, acabou por derrubar (depois de alguns bons anos) o chamado macartismo.
No período mais duro desse movimento, liderado pelo senador Joseph McCarthy, em especial nos anos 50 a 57, milhares de americanos tornaram-se vítimas de agressivas investigações e inquéritos abertos pelo governo e indústrias privadas. Eram demitidos e impedidos de trabalhar, muitas vezes com base em denúncias sem provas. O principal alvo das suspeitas foram funcionários públicos, trabalhadores da indústria do entretenimento, educadores e sindicalistas. Foi uma verdadeira caça às bruxas.
O roteirista Dalton Trumbo (Bryan Cranston), personagem do filme, Trumbo, a Lista Negra, tem uma história exemplar do que isso significou em Hollywood. Filiado ao Partido Comunista em 1943, já era um roteirista renomado quando caiu nas malhas do Comitê de Atividades Antiamericanas. Ele e mais nove outros roteiristas (chamados de The Then) recusaram-se a responder às perguntas do Comitê e foram parar na cadeia. Ao sair, depois de 11 meses de prisão, Trumbo e os demais foram  implacavelmente perseguidos. Ele acabou sobrevivendo escrevendo roteiros que eram assinados por outros colegas (alguém lembra do delicioso Testa de Ferro por Acaso, com  Woody Allen?). Uma de suas perseguidoras mais vorazes era a atriz (não lá muito bem-sucedida) e colunista Hedda Hopper, que fazia e desfazia as vidas de muitos atores e pessoas da indústria cinematográfica com suas fofocas, avidamente lidas em vários jornais dos EUA. Hopper foi vivida no filme pela sempre gloriosa Helen Mirren, uma coadjuvante de luxo para Cranston, que por seu lado está perfeito como o irônico e icônico Trumbo.
Mesmo escrevendo sob pseudônimo, Trumbo ganhou dois Oscar naquele período, por A Princesa e o Plebeu (1953) e Arenas Sangrentas (1956). A ironia da coisa é que todo mundo sabia, nos bastidores, o que se passava, mas os estúdios fingiam não saber quem era o homem por detrás dos pseudônimos. O mesmo aconteceu com outros roteiristas, com quem Trumbo “terceirizava” os trabalhos, até que, em 1957, praticamente ao mesmo tempo, o diretor Otto Preminger e o produtor e ator Kirk Douglas decidem colocar o nome de Trumbo nos créditos dos filmes Exodus e Spartacus (que levou o Oscar daquele ano), derrubando assim a odiosa lista.
O Comitê, aliás, usava como argumento que a indústria do cinema subvertia os valores democráticos e patrióticos do país. Sabendo, como se soube depois, dos vários filmes feitos pelos perigosos comunistas de plantão, fico pensando quem pode ter se tornado “vermelho” por assistir A princesa e o Plebeu, comédia romântica deliciosa com Audrey Hepburn e Gregory Peck. Embora ridícula, numa entrevista Trumbo diz que a lista negra foi perversa, pois causou desemprego, depressão e suicídios e vitimou até mesmo aqueles que, pressionados, delataram companheiros. Afinal, como lembra Edward G. Robinson, um dos delatores, os roteiristas ainda podiam escrever anonimamente, mas ele, um ator, não tinha como reinventar-se.
Enfim, é um filme interessante para quem gosta de filmes biográficos (meu caso) e que não se importam em fixar-se no roteiro (neste caso, uma merecida homenagem à classe) mais do que na forma. Para quem não se interessa por temas mais “politizados”, melhor ver o urso dando porrada no DiCaprio ou o Matt Damon brincando de horta em Marte. Ahh, acho que Cranston está melhor do que DiCaprio em O Regresso, mas isso não deve fazer diferença no resultado.


Vilma Pavani é jornalista e se tornou de esquerda depois de assistir Arenas Sangrentas, que fala da amizade de um menino com um touro condenado a ir para a arena. Sempre torço pelo touro, o que deve ser uma grande subversão.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O Regresso: quando o cenário é maior que o filme

Por Vilma Pavani

Nunca fui chegada em filmes sobre sobreviventes a naufrágios, acidentes, nevascas etc e tal. Muito menos gosto de filmes sobre alguém querendo se vingar a qualquer custo. Só por isso não deveria ter ido assistir O Regresso (The Revenant, que soaria melhor como O Retornado, ou O Ressurgido, pois tem um significado em inglês que tem um quê de “voltado dos mortos”), que deve dar finalmente o Oscar a Leonardo DiCaprio. Aliás, também não sou fã número 1 do ator, que por sinal está muito bem no filme, mas não melhor do que em O Aviador (2004) ou Os Infiltrados (2006). Só que em O Regresso vale o esforço físico na neve, o total abandono da pele do herói bonitinho, coisa que Hollywood adora premiar. Com aqueles olhos, não se consegue estragá-lo totalmente, mas chegam bem perto.
O diretor, o mexicano Alejandro González Iñárritu, vem se destacando “na comunidade” americana, depois das indicações por Babel (do qual não gostei e que só ganhou o Oscar de trilha sonora) e dos quatro Oscar (incluindo direção e melhor filme) com Birdman, bem melhor e com uma formidável interpretação de Michael Keaton, que deveria ter levado a estatueta no lugar de Eddie Redmayne . Ainda acho que é um diretor em ascensão e que deve ser avaliado nos próximos trabalhos. Nesse, dá umas escorregadelas feias quando tenta fazer poesia levitacional com a esposa morta (não, não é spoiler, isso fica claro desde o começo do filme) do explorador vivido por DiCaprio e que lidera um grupo de caçadores de peles  pelo gelado rio Missouri abaixo (ou acima) em finais do século XIX. O resumo do filme já deixa claro que ele é atacado por selvagens, depois por um urso, é abandonado para morrer e conta sua luta para sobreviver e se vingar de quem fez isso com ele.
Bem, o filme todo é isso e eu teria me entediado se não fosse o magnifico trabalho de um homem, Emmanuel Lutezki, que faz maravilhas com a fotografia e trabalha com grandes  planos-sequências inclusive em cenas de ação, o que deve ter dado um trabalho dos diabos! Não estranhei o resultado depois que descobri que ele foi o fotógrafo de A Ávore da Vida (2011)de Terrence Malick (como os filmes de Malick não são do tipo entretenimento fácil, nem dão muita bilheteria, muita gente perde a chance de conferir o que Lutezki é capaz de fazer com uma câmera). Vale a pena ver qualquer coisa que ele faça, até propaganda de cerveja. Ninguém assiste a O Regresso sem se sentir dentro daquele cenário primitivo de neve, frio, sangue , maldade e, às vezes, inesperada solidariedade. Quando a câmera "olha para cima", você se vê, pequeno e frágil, sob o olhar frio e meramente observador de Deus. A história do filme é “esquecível”, o visual é quase tudo. Se o diretor merece aplausos, acho que é mais por não interferir (suponho que tenha sido assim) com o trabalho de seu fotógrafo.
Em alguns momentos, o modo de trabalhar de Lutezki  e do diretor  me fizeram lembrar de Dersu Uzala, um dos mais belos filmes de Akira Kurosawa, inclusive a cena de construção de um abrigo feita por um índio para salvar a pele de DiCaprio. Kurowasa também trabalhava em apenas determinadas horas do dia para conseguir os efeitos de luz na floresta,com tomadas  longas e belas. Já outra cena de O Regresso me fez dar uma risadinha, porque em dado momento o ator se enfia na carcaça de um cavalo para escapar da morte pelo frio e eu pensei: "Pronto, virou Star Wars" (lembram de Han Solo colocando Luke dentro de um bichão para salvá-lo, numa nevasca?)
Embora sobre pouco espaço para os demais atores, o parceiro traidor (Tom Hardy) e o capitão da expedição (Domhall Gleason) por exemplo, têm chance de mostrar que são bons atores . Sem falar no urso, ou melhor, na ursa, que merecia um Oscar como "Mãe do Ano". Por sinal, a ursa estava cheia de razão ao atacar, tentando proteger seus filhotes, que sem dúvida não tiveram a menor chance de sobreviver sem ela.




Vilma Pavani é jornalista, detesta filmes cheios de sofrimento e acha que os homens brancos  não tinham nada que se enfiar onde não foram chamados.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

2016 na telinha: a maratona começa no feriado

Por Dora Carvalho

No que depender das estreias de novas séries e retomada das produções das consagradas, não sairemos da frente da TV em 2016. A única possível salvação é a aflitiva demora dos lançamentos no Brasil, o que pode dar um certo fôlego no intervalo entre assistir uma temporada e outra.
Mas 2016 já começou muito bem com a volta de Arquivo X e vai ficar ainda melhor com a continuidade das temporadas de Sherlock (sem data prevista e pode ficar para 2017), Grace and Frankie – a segunda temporada está demorando demais para estrear, porém, está prevista para maio deste ano, e já há negociações para a terceira temporada nos Estados Unidos; e a incrível Outlander, cuja segunda temporada já está em final de produção. Isso sem contar as mais que consagradas: Demolidor (março), Guerra dos Tronos (abril) e outras tantas que eu ainda nem comecei a ver: House of Cards (a quarta temporada estreia em março) e Penny Dreadful (maio), série que já vai para a terceira temporada.
Neste ano, só não se sabe quando chegará ao Brasil, a HBO vai estrear Vinyl, produzida por Martin Scorcese, Mick Jagger e Terence Winter (muita expectativa!).



Quem está com saudades de Hugh Laurie (House) vai poder ver o ator em outra série que promete: The night manager, uma co-produção entre a BBC e AMC, baseada no livro “O infiltrado”, de John Le Carré, que tem ainda no elenco Tom Hiddlestone (o Loki, do filme Thor).


Outro ator de peso que vai para telinha é Anthony Hopkins em The Westworld, produção da HBO. Os atores Rodrigo Santoro e Ed Harris também estão na trama que é baseada no livro de Michael Crichton, que mistura ficção científica e faroeste.
O teaser é incrível. Veja: 



O próximo feriadão prolongado promete maratona das séries atrasadas. E que venham as estreias de 2016!