sábado, 11 de junho de 2016

Frio, namorados e filmes antigos

Por Dora Carvalho

Quando se fala em filmes românticos, dificilmente consigo deixar de fazer uma lista de clássicos do cinema. Ainda mais em um final de semana que temos a rara combinação de muito frio e Dia dos Namorados. Esses filmes, por mais que tenham décadas de existência, parecem guardar uma originalidade que nunca perdem o tom de novidade e a capacidade de emocionar, seja para derramar algumas lágrimas ou dar muitas risadas. E nem precisa assistir a dois, porque o final de semana pede uma sessão nostálgica até com a família. E também ninguém quer só clichês, então, segue uma lista bem variada.




A dama e o vagabundo

Este filme de 1955 parece ter se eternizado na memória de muitas crianças e adultos. Foi o primeiro filme animado feito em widescreen pela Walt Disney. O enredo conta a história da pequena cocker spaniel Lady, que ao se perder dos seus donos, encontra apoio em um cachorro de rua, o Vagabundo. A clássica cena do espaguete é considerada até hoje uma das mais românticas do cinema.



Bonequinha de Luxo

Holly Golightly vivida por Audrey Hepburn é uma personagem inesquecível. O longa adaptado do livro de Truman Capote tem tantas cenas incríveis e é tão bonito que fica impossível fazer apenas uma sinopse. E não tinha lá tanta intenção romântica, mas é pura poesia. O filme é de 1961 e recebeu cinco indicações ao Oscar, mas venceu em duas: melhor canção, com Moon River, e melhor trilha sonora original, produzida por Henri Mancini. Só posso dizer uma coisa: a cena final é uma das mais lindas que já vi no cinema.




Ladrão de casaca

Como sinto falta da beleza e elegância dos atores de filmes antigos. O charme de Cary Grant no papel de o “Gato” é de suspirar. Ele faz o bon vivant e ladrão de joias John Robie, que precisa fugir das autoridades da Riviera Francesa por um crime que jura não ter cometido. Para se safar da cadeia, aproveita a elegância da bela Frances Hayes, vivida por Grace Kelly. O longa de 1955 foi dirigido por Alfred Hitchcock e é considerado um filme de suspense. Mas para mim é um desfile de beldades...



Casablanca

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman protagonizaram em 1942 a cena final que, sem dúvida, está entre as dez melhores do cinema. Recebeu oito indicações ao Oscar e venceu três: melhor filme, diretor e roteiro adaptado.




As pontes de Madison

Mais um filme de grandes atores: Meryl Streep e Clint Eastwood e ainda uma história bem construída e que foge do óbvio. O resultado é um drama romântico daqueles de ficar horas se perguntando depois “e se...?”. O longa foi produzido por Clint Eastwood em 1995. E ele mesmo interpreta um fotógrafo da National Geografic que vai para a pequena cidade de Madison fazer fotos das antigas pontes da cidade. Lá, conhece Francesca, uma dona de casa italiana.



Antes do Amanhecer, Antes do pôr do sol e Antes da meia-noite

O diretor Richard Linklater fez, em 1995, um filme sobre encontros fortuitos, que geram consequências que ficam pairando por anos na vida dos protagonistas. E não deixou os telespectadores sem resposta. Em 2004, fez Ethan Hawke e Julie Delpy, os mesmos atores do primeiro longa se reencontrarem. Podia ter parado por aí, mas decidiu fazer Antes da meia-noite em 2013 que, na minha opinião, não tinha a menor necessidade. Mas os dois primeiros valem tanto que o último nem precisa ser visto.




Wall-E

O longa de animação de 2008 tem um inusitado e doce encontro dos robozinhos mais fofos do cinema. As aventuras de Wall-E e da robô EVA mudam o destino da humanidade e nos convidam a refletir sobre que futuro queremos para todos.



Orgulho e Preconceito

O clássico da literatura escrito por Jane Austen teve diversas adaptações e a mais recente é a de 2005, digirida por Joe Wright. Keira Knightley vive a heroína Elizabeth Bennet e Mr. Darcy é interpretado por Matthew Macfadyen. Tudo neste filme está nos detalhes: os ângulos, a fotografia, os olhares e as interpretações dos atores.




sábado, 4 de junho de 2016

Bletchley Circle: mulheres brilhantes

Por Dora Carvalho

Bletchley Park é uma mansão tipicamente inglesa que fica no interior do país e escondeu na Segunda Guerra Mundial uma estação militar, a X Station, de decifração de códigos alemães. O matemático Alan Turing, que recentemente teve a biografia retratada no cinema com o filme O jogo da imitação (2014), era um dos responsáveis pelas análises de criptografia. No local, os primórdios da computação que conhecemos hoje começou a se desenvolver.
Mas, sempre que a Segunda Guerra é retratada, lembra-se mais das batalhas travadas entre soldados e pouco se fala sobre os combates feitos por cientistas e estrategistas que ficavam bem atrás da linha de ataque.
É esse o ponto que trata Bletchley Circle, uma das séries mais interessantes que assisti neste ano. O enredo retrata o papel das mulheres fora do front. Nos anos 40, durante o conflito, elas se acostumaram a trabalhar, a utilizar todo o brilhantismo e capacidade profissional e, após o término dos combates, foram obrigadas a retomar uma vida doméstica ao qual não estavam mais acostumadas. Mas suas vidas já estavam fortemente marcadas pela guerra e as consequências são inescapáveis.
As quatro protagonistas de Bletchley Circle têm capacidades tão incríveis que até nos lembram dos mutantes de X-Men. Lucy (Sophie Rundle) é capaz de memorizar textos, fotos, cenas e dados a ponto de reproduzir as informações como um computador. Susan (a excelente atriz Anna Maxwell Martin, que brilhou em Bleak House) tem a capacidade de reconhecer padrões em todos os dados que coleta e os conecta de maneira que possa criptografá-los ou decifrá-los. Jean (Julie Graham) é uma misteriosa bibliotecária que guarda segredos da Segunda Guerra Mundial e os mantém como trunfo para cobrar de autoridades informações sobre os casos que está investigando. Já Millie (Rachael Stirling) é a mais forte e independente de todas e não se limita às convenções sociais. E todas têm cérebros brilhantes e são capazes de encontrar pistas onde ninguém mais pode ver. Falar mais do que isso seria spoiler, pois o seriado é de mistério e nos instiga a montar os quebra-cabeças junto com as personagens.
O roteiro cheio de viradas é assinado por Guy Burt (The Borgias). Foram produzidas duas temporadas para a série, que tem um total de sete episódios, com cerca de 46 minutos cada um. Dá para assistir em maratona. Infelizmente, a produção, que era feita pela ITV na Inglaterra, foi cancelada sem explicações claras, apesar da grande audiência. Ao ver a série, fico me perguntando se os segredos retratados possam ter incomodado demais. As atitudes e decisões tomadas durante a Segunda Guerra ainda ecoam muito mais do que podemos imaginar.

A série está disponível no Netflix e também em DVD e Blu-Ray.






P.S. Bletchley Park é um local aberto a visitas e tem um site ótimo. Para matar a curiosidade sobre o local: http://www.bletchleypark.org.uk/

domingo, 22 de maio de 2016

A senhora da van: vida real e imaginação

Por Dora Carvalho

Algumas histórias da vida real são tão incríveis que, ao se confrontar com autores sensíveis à beleza do dia a dia, tornam-se narrativas que mesclam verdade e ficção sem, no entanto, conseguirmos saber onde está uma coisa ou outra. O escritor e dramaturgo britânico Alan Bennet se deparou com esse desafio. E é disso que trata o filme A senhora da van (2015), baseado em livro homônino do autor e também roteirizado por ele. 
Bennet, interpretado pelo excelente Alex Jennings (Babel, 2006), se muda para o bairro londrino de Camden Town, quando a região emerge como um local de classe média e artistas começam a ocupar as antigas casas construídas para operários da época vitoriana. Os vizinhos, orgulhosos de uma vizinhança próspera, não querem se deparar com um problema que todos os dias bate à porta: a pobreza. A situação é personificada por Mary Shepherd (Maggie Smith), uma senhora idosa pobre que vive em uma van e que de tempos em tempos estaciona o veículo na porta de alguém, fugindo das autoridades de controle de tráfego da cidade.
Mas o que ninguém sabe e é aí que tudo parece uma grande obra de ficção, apesar de real, é o que está por trás da atitude obstinada da personagem em se manter na rua, apesar do frio e das péssimas condições de sobrevivência. O assunto é espinhoso, mas o filme, em uma narrativa de metalinguagem – o espectador nunca sabe o que é realidade e imaginação - dá conta de apresentar a história devagar, revelando aos poucos o passado da senhora da van, como todos a chamam no bairro. As surpresas no enredo vão acontecendo sem que o espectador fique tendo sobressaltos.
Quem está acostumado com toda a fleuma de Maggie Smith em Downton Abbey vai se divertir vendo a atriz interpretando uma moradora de rua. A interpretação é tão maravilhosa que até esquecemos de Lady Grantham do seriado, justo o que esperamos de uma ótima atriz como a dama do teatro britânico.

Vale destacar que o filme dirigido por Nicholas Hytner e produzido pela BBC Films é, sem dúvida, mais um daqueles para a lista dos melhores longas britânicos, que primam pela originalidade e sensibilidade para recontar situações inusitadas da vida diária que mais parecem ficção. Nesta lista, relembro aqui Garotas do Calendário (2003) e Ou tudo ou nada (1997), quando personagens que poderiam ser amigos nossos se deparam com situações que ultrapassam os limites do razoável, obrigando-as a tomar decisões que, à primeira vista, parecem estapafúrdias, mas que subvertem a ordem e o senso comum de forma positiva.




sábado, 14 de maio de 2016

Grace and Frankie: delícia de série

Por Dora Carvalho

A série Grace and Frankie foi concebida inicialmente para ser um produto destinado ao público com mais de 60 anos e gerar imediata identificação por parte dessa faixa etária. Mas o seriado buscou um público e alcançou vários. E a segunda temporada que estreou recentemente no Netflix é prova disso. Que delícia assistir Jane Fonda e Lily Tomlin protagonizando a trama com tanta sintonia. Há tanta verdade na atuação, que só poderia vir de duas atrizes que são amigas há muitos anos. Mais curioso ainda é saber que Jane Fonda sentiu necessidade de contratar uma professora de interpretação por não estar habituada ao formato televisivo. A situação demonstra ainda mais a grandeza da atriz.
A série, produzida por Marta Kauffman (de Friends) acertou em cheio não só por ter um enredo que abre discussões sobre os desafios e aventuras dos que já passaram dos 70 anos. Mas porque retrata de maneira super bem-humorada temas sérios (envelhecimento, sexualidade, homossexualidade, meio ambiente), sem abrir mão da densidade e questionamentos necessários, porém, foge de ser panfletário ou dogmático. Inicialmente, a sinopse parece bizarra. As protagonistas são casadas há décadas e os casais são amigos de longa data. Até que os maridos, intepretados por Martin Sheen e Sam Waterston (adoráveis em seus papéis), decidem abrir o jogo: são homossexuais e têm um caso antigo e querem finalmente casar-se. A primeira temporada constroi a nova vida e adaptação das duas amigas e culmina em um fato que serve de ponte para a segunda temporada e sacudir a trama.
Os novos capítulos são tão viciantes que foi difícil assistir sem ser de maratona. E também são curtinhos e não passam muito dos 30 minutos cada um. Dá vontade de anotar as piadas super inteligentes para comentar com as amigas, mas nem dá tempo. Mal rimos de uma e já vem outra, tamanha a naturalidade dos atores em cena e sintonia com o roteiro e texto.

Felizmente, já tem uma terceira temporada aprovada. Por mim, poderia vir uma a cada semestre. Como é bom ver atores experientes em cena!





sexta-feira, 6 de maio de 2016

O gênio problemático – O Dono do Jogo

Por Vilma Pavani


Definitivamente este não será um blockbuster ou mesmo um filme de sucesso, ao menos no Brasil. Mas O Dono do Jogo (Pawn Sacrifice), com Tobey Maguire no papel do enxadrista americano Bobby Fischer, e Liev Schreiber como seu adversário russo Boris Spassky, é um bom entretenimento para quem gosta de histórias reais sobre momentos culminantes no esporte e as circunstâncias em que se produzem campeões – e malucos de pedra.
O momento chave do filme é a disputa em 1972, na Islândia, pelo campeonato mundial de xadrez, que Fisher, em sua genialidade paranoica, vence o campeão russo que por três anos dominara o cenário mundial. Mas mais ainda, e é pena que o filme não se aprofunde mais nesse contexto, é um retrato de uma época conturbada, em que a guerra fria entre EUA e URSS está no auge e em que tudo, desde a corrida espacial até disputas de atletismo valiam para cada uma das potências como amostra de sua superioridade. 
Começando a jogar ainda criança na década de 50, Fischer vive entre o temor dos comunistas (e sua mãe era uma ativista), a falta de privacidade para treinar e sua avidez em se tornar o mais jovem campeão do mundo. Ele passa batido pelas grandes questões dos anos 60, como a guerra do Vietnã, os hippies, a ameaça nuclear, ao mesmo tempo em que sua genialidade no xadrez não é isenta de problemas mentais - acredita piamente, por exemplo, num complô comunista contra ele, se sente espionado o tempo todo e ainda se ressente do poder financeiro dos judeus a ponto de se tornar antissemita - mesmo sendo um deles! 
Fischer é uma figura pouco simpática, rude, megalomaníaca, movida a dinheiro e com exigências de prima-dona. Entretanto, é a única chance dos EUA vencerem a supremacia dos russos no xadrez. Boris Spassky, por seu lado, é um profissional completo, mas sofre a pressão soviética que também o vê como uma arma ideológica. 
O Dono do Jogo não tem ação no sentido clássico e para muita gente, em especial quem não viveu ou não conhece a época dos acontecimentos, pode soar meio sem graça. Para mim, que estava na faixa dos 20 anos na época, foi muito interessante, porque além de entender uma série de coisas sobre o que fazia Fischer ser uma figura tão arrogante, me rememorou a febre do xadrez que tomou conta do Brasil, quando a imprensa mantinha até colunas sobre os principais jogos nacionais e internacionais. Vivemos aqui a era Mequinho, um ótimo jogador que vi jogar enfrentando vários adversários ao mesmo tempo, algo que Fischer fazia nos EUA.
O título em inglês, que significa O sacrifício do peão (ou pião, como querem alguns) é bem mais expressivo que o nacional, pois tanto pode representar a estratégia de perder uma peça importante para ganhar o jogo, como aludir ao sacrifício da sanidade do próprio jogador em função de torná-lo um campeão, uma peça-chave dos interesses políticos da época.
De modo geral, trata-se de um filme quadradinho, dirigido por Edward Zwick (de O último Samurai e Diamantes de Sangue) e produzido pelo próprio Tobey Maguire. Procura recriar o clima da época, mas não se pode dizer que fez a ligação clara entre o que se passa na cabeça de Fischer e o que se passa no mundo. Os atores estão bem e são bem parecidos com os personagens originais. Como se trata de fatos reais, não vejo problema em dizer que o filme termina em 72 mas traz informações sobre a deterioração mental de Fischer, que morreu pobre asilado na Islândia em 2008, depois de viver recluso por muitos anos e ter até sido preso por vagabundagem depois de abandonar o xadrez no auge da fama. Coisas de louco. Ou de gênio. 




 

Vilma Pavani é jornalista e acompanhou por um bom tempo a disputa entre EUA E URSS na década do xadrez, mesmo sem entender bulhufas do jogo.

domingo, 1 de maio de 2016

Hinterland: série policial celta e sombria

Por Dora Carvalho

Hinterland em uma tradução livre do alemão significa interior, uma cidade atrás de um porto ou ainda se refere a uma região com população escassa, com menor desenvolvimento. É justamente essa a atmosfera que dá o clima do seriado britânico Hinterland (BBC), sem dúvida um dos melhores enredos policiais disponíveis atualmente e que já tem duas temporadas no Netflix e uma terceira em fase de produção.
O enredo principal é clássico das estórias típicas de detetive. Um corpo é encontrado em um local isolado, cujas circunstâncias de assassinato são as mais misteriosas possíveis. Mas há várias maneiras já conhecidas de desatar os nós da investigação e um jeito que pode ser muito diferente. É aí que a série Hinterland se destaca.
Primeiro: a série se passa na aldeia de Aberystwyth. Sim, os nomes locais são quase impronunciáveis, com muitas consoantes. Aí que vem o segundo ponto – a trama se passa no País de Gales, cenário pouquíssimo conhecido no imaginário cinematográfico e da TV. Em galês, o nome do seriado é Y Gwyll – Crepúsculo (há trechos escritos e falados em galês, porque as cenas foram rodadas nos dois idiomas). Terceiro: tudo acontece em áreas isoladas, onde o vento e o frio são quase constantes, a vegetação é singular, porque há lugares que parecem áridos, mas também florestas escuras e úmidas, além de pântanos. Há realmente locais assustadores nas locações de Hinterland (quase toda filmada em Ceridigion, região portuária do País de Gales). Ou melhor, a trama deixa tudo ainda mais sinistro e sombrio, com aquelas árvores retorcidas e sem folhas típicas dos romances góticos.
O DCI Tom Mathias (o ator galês Richard Harrington, que já fez um ótimo papel na minissérie Bleak House também da BBC, além de Lark Rise to Candleford) e sua parceira Mared Rhys, vivida pela atriz Mali Harris, têm um jeito peculiar de fazer suas investigações e interrogatórios. Usam a emoção no limite máximo. Ambos os personagens são pessoas atormentadas ou por dramas do passado (Mathias) ou por relacionamentos familiares difíceis (Mared). O que ocorre com os protagonistas é um espelho das investigações, já que é necessário primeiro descobrir segredos de família muito graves antes de chegar a um desfecho. Outro ponto positivo da série. De início, essas tramas paralelas que vão sendo tecidas faz parecer que a estória está perdendo o curso, saindo dos eixos, mas é um recurso para levar o telespectador a duvidar de tudo e de todos, inclusive dos investigadores, já que eles se envolvem muito com os suspeitos do assassinato. Cada episódio faz um eco do passado dos personagens ressoar novamente e nos ajuda a entender a formação psicológica dos protagonistas.
É uma série que não tem nenhuma pirotecnia e não tem as cenas de ação típicas de seriados policiais, sobretudo, se compararmos com os americanos, que tem os fãs mais entusiastas. Portanto, isso pode desagradar e muito quem gosta e está mais acostumado com esse estilo.
Mas quem busca recursos de cinema muito bem adaptados para TV – a luz que revela e esconde o que está prester a acontecer; planos amplos em cenários inóspitos, trilha sonora que eleva o suspense e os batimentos cardíacos e, o mais importante, interpretações de atores que realmente mergulham nos aspectos psicológicos dos personagens (isso acaba se revelando um ponto importante das investigações para a descoberta do verdadeiro assassino) tem chances de gostar. E me agradou mais ainda por ter toda uma atmosfera noir, porém, explorada em um cenário inusitado para o gênero.
As temporadas têm três e cinco episódios de mais ou menos uma hora e meia cada um. Isso permite um mergulho muito maior na estória e o roteiro lembra bastante tramas literárias, já que há tempo para explorar várias facetas dos personagens e nuances dos casos investigados. No primeiro episódio, tem-se a impressão que a série tem um ritmo mais lento, mas isso se desfaz logo a partir do segundo.
São tanto elementos explorados na série criada por Ed Thomas e Ed Talfan, produtores radicados em Cardiff, capital do País de Gales, que o fato de ter tido uma grande receptividade do público britânico não causou tanta surpresa, já que os dois declararam que os cenários galeses iriam sim instigar a curiosidade do público, de tão desconhecidos.
A terceira temporada deve ir ao ar em 2017. Por enquanto, as duas primeiras estão disponíveis no Brasil apenas pelo Netflix.

Só uma pergunta: o que será que está por trás do misterioso inspetor-chefe Brian Prosser (interpretado pelo ator Aneirin Hughes)? Ele tem um quê de Arquivo-X? Veja a série e lance suas apostas.  





segunda-feira, 25 de abril de 2016

Espécie extinta

Por Vilma Pavani

Alguns até se esforçam ou se aproximam. Mas não é fácil. E não adianta dizer que os tempos mudaram, porque mudaram mesmo e não foi, nesse caso, para melhor. Estou falando do charme e do carisma dos galãs dos anos 40 até 70, no máximo. E também não se diga que penso isso porque sou velha, pois nos anos 40 eu nem era nascida e assim mesmo adoro os atores daquela época, com sua elegância, discrição e uma quase arrogante masculinidade, em alguns casos, embora outros primassem pela sutileza. 
Marlon Brando é o grande exemplo: aliava os traços perfeitos a uma rudeza de estilo que as mulheres amavam. Era o macho alfa, que estalava os dedos e a gente ia. Nananinanão, nada de dizer que isso só valia porque as mulheres daquela época eram na maioria submissas. A verdade é que com ele, parecia sexy ser arrastada pelos cabelos, como no tempo das cavernas. E ele bem que sabia lançar aqueles olhares de mormaço quando queria parecer frágil no fundo (mas beeeem no fundo).
Brando era o fetiche feminino por excelência. Mas o homem com que toda mulher queria casar, de acordo com a perspicaz observação das mais famosa crítica de cinema americana, Pauline Kael, era bem diferente: Cary Grant, elegantérrimo, sutil, galante e inteligente. Voz agradável, jeito tranquilo, boas maneiras, pinta de galã mas cara de macho. Creio que nem a Kael sabia quando escreveu o artigo, pois a coisa ficou guardada no fundo do baú por muitos anos, mas Cary Grant era gay, o que precisou esconder por toda a vida, já que naquela época ser gay era incompatível com Hollywood. Foi o caso de outro charmoso da época, Gary Cooper, e de Rock Hudson, todos amados pelas mulheres. Enquanto isso, Tony Curtis, com sua beleza quase feminina e que sempre me pareceu suspeito, foi um dos maiores “ladiesman” de Hollywood, garanhão que hoje é mais conhecido como o pai de Jamie Lee Curtis. 
Quer mais charme do que tinha Humphrey Bogart? Baixinho, feioso e irresistível. Ou ainda Clarck Gable? Se o primeiro era um beberrão e o segundo tinha mau hálito, isso não chegava até as fanzocas. Em compensação, o maravilhoso, fino e inteligente Paul Newman só tinha como defeito ter sido um ótimo marido, ao longo de mais de 50 anos, da sortuda atriz Joanne Woodward.
Bem diferente dele, Frank Sinatra colecionava casamentos e suspiros. E manteve o velho encanto dos olhos azuis até o fim da vida. James Stewart , por seu lado, fazia a linha "séria": passava uma ideia de confiabilidade, estabilidade, sem perder o charme jamais. Quem não gostaria de casar com um homem assim? Além de tudo era educado, aquele tipo que abre a porta do carro e tudo o mais.

Marlon Brando, Cary Grant, Gary Cooper, Rock Hudson, Tony Curtis, Humphrey Bogart, Clarck Gable, Paul Newman e Frank Sinatra


E veja-se que aqui só estamos falando de Hollywood. Porque saindo para o velho continente, tínhamos os franceses Alain Delon, provavelmente o homem mais bonito de seu tempo, Jean Louis Tritignant, com aquele jeito meio intelectual de ser, e o feioso e encantador Jean Paul Belmondo. Sem falar na receita italiana jamais repetida, com o inigualável Marcelo Mastroianni. No Brasil, tivemos Dick Farney e Hélio Souto, galãs que nada ficavam a dever aos de fora.

Hoje só consigo pensar em George Clooney para manter acesa a chama do charme antigo. Provavelmente outros até poderiam ter papel semelhante, como Hugh Jackman ou Henry Cavill, mas estão muito ocupados fazendo super heróis. E convenhamos, por mais legal que seja um super herói, jamais vai abrir a porta para a gente...

Marcelo Mastroianni, Alain Delon, Jean Loius Trintignant, Jean Paul Belmondo, James Stewart, Dick Farney, Helio Souto e George Clooney

domingo, 10 de abril de 2016

Wallander: detetive soturno

Por Dora Carvalho


O Netflix disponibilizou as quatro temporadas do seriado britânico Wallander, estrelado por Kenneth Branagh, para deleite dos fãs da premiada série britânica. Aqui no Brasil foi lançado em DVD apenas a primeira temporada e já está esgotada nas lojas há algum tempo.
A história é inspirada nos livros do escritor sueco Henning Mankell e começou a ser produzida em 2006 pela BBC. De lá para cá, já faturou os prêmios britânicos de drama televisivo seis vezes e um de melhor ator para Branagh.
O ator interpreta Kurt Wallander, personagem de uma série de livros de Mankell, um inspetor que atua na pequena cidade de Ystad, na Suécia. O caráter psicológico da trama e a personalidade do protagonista são os maiores diferenciais do seriado em comparação a outras tramas de detetives, além do fato de os produtores terem decidido por um cenário sueco, para ficar mais próximo do enredo dos livros, em vez de filmar em locações inglesas.
Cada temporada tem três episódios de aproximadamente 1h30 cada um, o que permite um mergulho na história e nas características do personagem. A atuação de Branagh, obviamente, é brilhante e o ator emprestou a Wallander ares de detetive soturno, porém, ligeiramente atrapalhado. Mas isso é só na aparência. O personagem tem relações conturbadas com a família, principalmente com a filha.
O que chama mais atenção logo no primeiro episódio é a beleza e aparente calmaria da pequena cidade de Ystad, que na verdade esconde violência e crimes aterradores.
Em maio, vai ao ar na Inglaterra a temporada final da série. Para quem não viu, agora é assistir as temporadas em maratona. Ou torcer para estrear logo por aqui a última temporada.






domingo, 3 de abril de 2016

Marseille: a disputa pelo poder no sul da França

Por Dora Carvalho

O ator Gerard Depardieu será a estrela da série Marseille – produção original francesa para o Netflix. A trama está sendo chamada de House of Cards francês, por tratar de disputa pelo poder e corrupção na cidade portuária de Marselha, no sul da França.
O enredo vai girar em torno de Robert Taro (Gerard Depardieu), prefeito da cidade de Marselha há 25 anos e que terá que enfrentar novas eleições contra um candidato muito ambicioso (interpretado pelo ator Benoît Magimel).
Depardieu há tempos não faz um trabalho de grande expressão e que tenha chegado ao Brasil com alarde. O ator, que está com 67 anos, pôde ser visto pelo público brasileiro em uma produção recente no comovente Minhas tardes com Margueritte (2011) e em Asterix e Obelix: Ao serviço de sua majestade (2012).
Mas ninguém tem dúvida da força do dramática de Depardieu e, apenas pelo trailer de Marseille, já dá para perceber que o projeto é sensacional.

A estreia mundial é 5 de maio. A temporada inaugural terá oito episódios. A série é dirigida por Dan Franck e é a primeira produção original Netflix realizada pelos franceses. Só posso dizer que a expectativa é altíssima.




sábado, 26 de março de 2016

A grande aposta: como entender o cassino global

Por Dora Carvalho

Não importa se você não entende nada de swaps, subprimes, títulos podres ou classificação de risco BB, BBB+ ou AAA. Se você quer saber como se deu o maior colapso financeiro global, não deixe de assistir o filme A grande aposta (2015).
Dirigido por Adam McKay, diretor com produções inexpressivas e que coloca agora no currículo um longa que, sem dúvida, o deixa em destaque, não apenas por ter recebido a indicação de Oscar de melhor filme e diretor, mas por que de fato é uma história que põe o dedo na ferida e deixa o espectador grudado na cadeira do começo ao fim. Esse era um dos filmes que tinha muita expectativa para este ano e não me decepcionei.
“A grande aposta” a que se refere ao título do filme nada mais é a história real de quatro investidores que conseguiram a façanha de prever o que ninguém “queria ver antes": o grande colapso financeiro de 2008, que culminou na maior crise econômica já registrada na história.
Com um ritmo de documentário e narrado por Ryan Gosling, que faz o papel do investidor Jared Vennet, do Deutsche Bank, o longa começa com a história de Michael Burry (Christian Bale – excelente no papel, não à toa recebeu indicação para o Oscar), um dos primeiros a perceber que o mercado hipotecário norte-americano estava à beira de um salto de inadimplência sem precedentes. Obviamente, ninguém acreditou. Uma série de acontecimentos tão surreais que tornam a realidade excelente para virar um filme de ficção levam os outros investidores a quase que literalmente “farejar” que algo estranho estava acontecendo no mercado.
O enredo segue em ritmo vertiginoso, elevando o suspense ao absurdo, porque já sabemos o que aconteceu de fato – a crise global – mas o roteiro nos leva a querer saber se esses personagens conseguiram aproveitar a grande sacada que tiveram. Os problemas pessoais e a incrível aposta que esses investidores fizeram é colocada no filme de forma a gerar total identificação no espectador: o que você faria no lugar deles? Isso é genial no roteiro, porque, é lógico, parte-se do princípio de que sabemos o final da história. Gera-se então novas maneiras de suspense que prende o espectador de modo que se possa entrar na loucura que foram as decisões tomadas no cassino global que se tornou a economia do planeta. Garotos que tomavam decisões que afetaram a renda e os empregos de milhares de operários, aposentados e pensionistas em todo o mundo. O mais interessante do filme é percebermos que no meio daquele apocalipse quem imaginávamos que sairia perdendo também foram os grandes vencedores.
O elenco estrelado, que tem Brad Pitt, Steve Carrell e Marisa Tomei, tem o mérito de tratar a coisa toda como um grande deboche, tamanho o absurdo das circunstâncias apresentadas ao longo da história e é como de fato aconteceram. A melhor pergunta do filme: “afinal, você é um investidor ou um traficante?”. Outro ponto positivo: não há maniqueísmo – nada de vilões ou mocinhos. Ninguém está interessado em ser legal e sim ganhar o máximo ou perder o menos possível. Mas a história não termina nada bem. E todos sabemos disso.

É lógico que o filme vai gerar ainda mais perguntas. Sugiro então ver o documentário Trabalho Interno (Inside Job/2010), dirigido por Charles Ferguson, vencedor do Oscar de melhor documentário. E veja como é possível ficar muito rico apenas fechando os olhos para a realidade.