Imagens inesquecíveis, que capturam o espírito do filme, fazem mistério, mas ao mesmo tempo criam grande expectativa em torno do enredo. Os pôsteres de cinema antigo são, sem dúvida, obras artísticas que homenageiam atores, atrizes, nos lembram de trilhas sonoras marcantes, independentemente do gênero cinematográfico.
Nesses dois anos do blog +CineLivre, uma homenagem a alguns filmes e atores históricos através de imagens fabulosas.
Casablanca (1942)
Cantando na Chuva (1952)
E o vento levou (1939)
Bonequinha de luxo (1961)
Vertigo (1958)
Metropolis (1927)
O poderoso chefão (1972)
Star Wars (1977)
Scarface (1983)
Laranja Mecânica (1971)
Extra-Terrestre (1982)
Amadeus (1984)
2001 - Uma odisséia no espaço (1968)
Batman (1989)
Blade Runner (1982)
Caça-fantasmas (1984)
Tubarão (1975)
Cães de Aluguel (1992)
Jurassic Park (1993)
O silêncio dos inocentes (1991)
O exorcista (1973)
Pulp Fiction (1994)
Rocky (1976)
Indiana Jones - Os caçadores da arca perdida (1981)
Este site disponibiliza pôsteres com imagens em alta resolução:
Em 1985, o
escritor norte-americano William Gibson lançou a obra Neuromancer, considerada
um marco do surgimento do termo e estética cyberpunk. O livro retrata um futuro
próximo em que a sociedade é dominada por grandes corporações e os humanos têm
partes do corpo aperfeiçoadas com a robótica. Poucos anos depois, entre 1989 e
1991, o artista japonês de mangás, Masamune Shirow, publicou Ghost in the
Shell, inspirado em Gibson. O enredo se passa em 2029 e apresenta uma sociedade em que os humanos
acessam redes de informações com os cyber-cérebros. Qualquer dano ou
insatisfação corporais são reparados com substituições cibernéticas. A
protagonista é a Major Motoko Kusanagi, cuja única condição humana está no
“salvamento” do cérebro da personagem, que foi implantado em um corpo robô.
Ghost in
the Shell é um sucesso entre os fãs de mangás e animes. A sofisticação do
enredo, dos traços do mangá e das adaptações para televisão e games
arregimentou uma grande legião de fãs não apenas no Japão como em todo mundo. A
notícia da adaptação para uma live-action na telona gerou bastante expectativa
de quanto os produtores e diretores seriam fiéis à obra original, sobretudo, no
que diz respeito às discussões filosóficas sobre a existência humana e os
limites tecnológicos. Como Matrix (1999) também teve como uma das inspirações Ghost in the Shell, fãs do gênero esperavam uma espécie de revival.
O longa A vigilante do amanhã – título dado à história
aqui no Brasil e que acaba de estrear - é dirigido pelo diretor pouco conhecido
Rupert Sanders (Branca de Neve e o Caçador /2012).
É claro que
os fãs mais ardorosos tanto do mangá quanto do anime terão pontos de
insatisfação. Visto a partir das referências as quais o filme se inspira, o
enredo cinematográfico é uma espécie de introdução ao universo de Ghost in the
Shell.
Mas quem
está interessado nas diversas referências que servem de inspiração para o
filme, assim como as cenas de ação e efeitos visuais, pode sair da sala de
cinema querendo saber mais. E quem é fã da estética cyberpunk e, principalmente
de Neuromancer e Reconhecimento de padrões de William Gibson, vai identificar
no enredo e nas cenas de ação diálogos e diversas passagens descritas nos dois
romances do escritor norte-americano. Gibson praticamente profetizou os avanços
tecnológicos contemporâneos e como isso tudo é encantador e ao mesmo tempo
nocivo, quando o excesso de tecnologia vai tomando conta de nossas vidas.
Sem
dúvida alguma, o enredo distópico de A vigilante do amanhã toca nesses pontos.
O estranhamento inicial em relação à escalação de Scarlett Johansson como
protagonista – houve certa polêmica por ela ser ocidental – se desfaz nos
primeiros minutos, já que o enredo trata de uma sociedade altamente
globalizada, sem distinção de países e múltiplas nacionalidades. Quem já leu
livros cyberpunks sabe que esse tipo de distinção entre povos é praticamente
inexistente, já que a tecnologia acessa tudo e a todos.
O
fato é que Johansson está bem na pele da Major Motoko, a atriz transmite
muita empatia em relação à personagem, transferindo a discussão filosófica da
história original para um contexto mais intimista, além, é claro, de
protagonizar as melhores cenas de ação do filme. Major é líder de uma equipe de
agentes do Setor 9, grupo especializado em terrorismo cibernético. O ator
dinamarquês Pilou Asbœk é Batou, um agente de olhos de
raio-x que acompanha Matoko nas missões, assim como Togusa (Chin Han), um
atirador que não aceita melhorias tecnológicas no corpo. O chefe do setor é
Daisuke Aramaki, vivido pelo ator japonês Takeshi Kitano, referência no
universo da cultura pop japonesa. Os diretores deram a satisfação aos
espectadores de deixá-lo falando somente em japonês. Juliette Binoche faz a
doutora Ouelet, responsável pelo projeto que criou a robô Major. É através dela
que surge um pouco da discussão dos limites entre humanos e robôs.
O que fica
de A vigilante do amanhã é um desejo de ler e assistir cada vez mais obras
relacionadas ao universo cyberpunk. Dois elementos do filme o tornam uma
homenagem a esse estilo de ficção científica: a trilha sonora fiel ao anime
japonês, com obras que vão de Mozart a Debussy, passando por música eletrônica
japonesa e a fotografia absolutamente inspirada no cinema noir, com referência
direta à Blade Runner. As cenas holográficas deixam isso evidente.
A sequência de abertura do filme é muito fiel a do anime. Veja abaixo:
A história
por trás do filme Estrelas além do tempo é por si só e incrível e fascinante.
Três mulheres afro-americanas foram responsáveis por parte dos cálculos e
preparativos para levar os americanos à dianteira em uma das maiores disputas
do período da Guerra Fria entre Estados Unidos e Rússia: a corrida espacial.
Enquanto os russos tinham Yuri Gagarin fazendo o primeiro vôo na órbita
terrestre, os americanos se debatiam com uma série de erros e fracassos, colocando
em risco a existência da NASA.
Margot Lee
Shetterly, autora do livro Hidden Figures (ou figuras escondidas), ainda estava
pesquisando em 2014 a história das mulheres que eram “computadores”, quando foi
convidada a participar do roteiro de um filme que ganharia o mesmo título. Até
o início da década de 60, computadores eram pessoas que faziam os cálculos
matemáticos necessários para a execução de projetos da NASA. A Segunda Guerra
Mundial e o período da Guerra Fria (a tensa disputa por hegemonia entre EUA e
Rússia) fizeram com que o governo norte-americano recrutasse centenas de
profissionais da área de matemática e engenharia. Por essa razão, a população
afro do país começou a ocupar, ainda que de forma tímida, postos de trabalho
no serviço público. Katherine Globe, Mary Jackson e Dorothy Vaughan era um
desses “computadores”. Apesar do conhecimento e sólida formação acadêmica, se
deparavam com severas limitações sociais em razão da segregação de pessoas: não
podiam frequentar os mesmos locais que a população de cor branca, escolas,
estabelecimentos públicos e, mesmo assim, foram pioneiras em suas áreas,
lutando com as armas que tinham contra o preconceito. Eram mães, esposas e
trabalhadoras em busca de dignidade para suas famílias e ascensão pessoal e
social.
Em
departamentos dominados por figuras masculinas no início dos anos 60, as três
conseguiram feitos gigantescos para a época: conseguiram não só serem ouvidas,
mas também puderam contribuir com a pesquisa científica e evolução do
conhecimento.
Só que, como o título em inglês do livro nos apresenta, eram figuras
escondidas. Os nomes dessas mulheres até muito pouco tempo atrás eram quase
desconhecidos nos meios acadêmicos e científicos. Até que Margot Lee Shetterly
iniciasse a pesquisa dessa história que logo ganhou destaque com a compra dos
direitos de adaptação para o cinema.
É difícil
definir o que é melhor neste filme, já que uma história tão interessante não
ofereceu dificuldades para o diretor Theodore Melfi (ainda sem grandes títulos
no currículo) transpor para as telas uma narrativa tão instigante. Mas ele fez
mais. Colocou no elenco três gigantes: Octavia Spencer (que faz Dorothy
Vaughan), Janelle Monáe (cantora estreante como atriz e já surpreendeu) e
Taraji P. Henson, que está arrasando no papel da matemática Katherine Globe e,
sem dúvida, conduz o filme, tamanha a força da interpretação. O longa tem ainda
Kevin Kostner, Kirsten Dunst e Jim Parsons (o eterno Sheldon Cooper de “The Big
Band Theory) que funcionam como um excelente elenco de apoio para fazer as três
atrizes brilharem ainda mais.
O filme
Estrelas além do tempo não tem grandes inovações cinematográficas, mas se
agiganta com as atuações, a perfeita recriação de época, seja no figurino e
cenários e, finalmente, pelas discussões que suscita. Apesar do excesso de
indicações de La la Land – Cantando estações, ficarei na torcida para que a
força da história de vida de três mulheres notáveis ganhe ainda mais destaque.
O longa concorre a três premiações: Oscar de melhor roteiro adaptado, atriz
coadjuvante para Octavia Spencer e de melhor filme. É possível que a atriz
traga a estatueta para o filme.
Recomendo
muitíssimo a leitura do livro, que traz com riqueza de detalhes como era o dia
a dia da NASA nas décadas iniciais, quando era chamada de NACA, assim como a
vida dos trabalhadores do primeiro centro de computação do complexo de pesquisa
espacial. O filme é inspirado na história escrita pela autora, com mais destaque
para o feito dessas três mulheres. Este é um raro caso em que livro e filme se
complementam, já que foram produzidos quase que ao mesmo tempo e ambos são
muito bons. Vale a leitura antes ou após o filme.
Estrelas além do tempo - Margot Lee Shetterly - Editora HarperCollins (2017)
Ela é agressiva, até meio grossa às vezes, mal
resolvida em seus relacionamentos –
tanto pessoais como profissionais – fuma feito uma chaminé, não gosta de ser
criticada e toma decisões impulsivamente, o que a leva a cometer vários erros.
Mas também é inteligente, perspicaz, leal aos amigos e, em especial, aos seus
alunos, com os quais se compromete profundamente. Essa é Rita, a professora
politicamente incorreta da
série dinamarquesa de mesmo nome. A série foi lançada em 2012 pelo canal
dinamarquês TV2 e fez o maior sucesso no país. Ao mesmo tempo, tornou-se uma
das produções estrangeiras mais populares entre os assinantes americanos do
Netflix, e por conta disso o site de streaming decidiu ser o coprodutor da
terceira temporada. Sem o Netflix provavelmente a série seria encerrada na
segunda temporada, o que de todo modo não lhe tiraria os méritos e nem o
sentido. Mas é tão boa de ver que valeria até continuar uma temporada mais.
A personagem central é Rita Madsen (Mille Dinesen, ótima na pele da personagem), uma
professora de escola primária que luta para criar sozinha seus três filhos
adolescentes e para quebrar a burocracia do sistema escolar. É interessante
notar que apesar de se passar em Copenhague e com todas as enormes diferenças
culturais e econômicas, os problemas enfrentados na escola têm muito em comum
com qualquer escola de qualquer país, como a desmotivação de parte dos alunos,
o bullying entre colegas e sobre os professores, gravidez adolescente,
homossexualidade, preconceito de classes e contra imigrantes, drogas etc. E
embora Rita seja de longe a pessoa mais interessante da série, vários
personagens crescem e se sobressaem ao longo dos episódios, como a idealista e
inexperiente professora Hjordis ou Jeppe, o filho mais jovem e gay de Rita.
Ora engraçada, ora séria, ora pungente, a
história se desenrola com facilidade e em dois ou três capítulos a gente se
deixa seduzir por ela. E
Rita, sem dúvida, com todos os seus erros e acertos, é a professora que
gostaríamos de ser, ou de ter tido,
ou que cuidasse de nossos filhos. Vale a pena assistir.
A série tem três temporadas e um total de 24 episódios. Foi criada por Christian Torpe.
Após sete
anos desaparecida, a jovem Prairie reaparece em um video compartilhado pela
internet. A volta gera ainda mais mistério, já que a protagonista da
história ressurge com novas e inexplicáveis capacidades físicas. Esse é o ponto
de partida de The OA, uma das mais surpreendentes séries lançadas recentemente
pelo Netflix.
A primeira
temporada tem oito episódios que vai desenrolando a trama de mistério de
maneira a prender o espectador de tal forma que fica impossível não assistir a
série em maratona. Cada fim de episódio gera uma nova pergunta e ainda mais
mistérios.
Brit
Marling (Prairie), além de protagonizar The OA, é responsável pelo roteiro e
produção. A interpretação da atriz é sem dúvida o maior destaque da trama e uma
surpresa. A sensibilidade da direção de Zal Batmanglij se une a uma construção
muito bem feita dos personagens, que vão revelando seus dramas sem a
necessidade de muitas explicações. Tudo é a partir do ponto de vista da
protagonista, entretanto, o enredo se torna de certa forma caleidoscópico
porque há conexão entre acontecimentos do passado e futuro e os personagens,
apesar de muito diferentes entre si, vão ganhando ressonância.
Ao
assistir, o espectador pode tentar enquadrar The OA em algum gênero, mas a
trama reúne mistério, ficção científica e discussões de filosofia e dramas
existenciais. Aliás, tentar classificar a trama é inútil, pois a proposta é
realmente causar estranheza.
Os serviços
de streaming, com uma variada gama de produções próprias, abriram a
possibilidade de atores, produtores e diretores oferecerem enredos sem muita
preocupação com grades de horário e faixas etária de público, afinal, quem
define tudo isso são os assinantes. Não à toa, vemos séries como Stranger
Things, que fazem referência aos anos 80 e Steven Spielberg, conquistar o público. Se fosse para reverenciar algum diretor da velha guarda, The OA estaria mais próxima da estranheza provocada por Twin Peaks (1990/1991) de
David Linch, que, é bom lembrar, terá continuação neste ano.
The OA, que também tem a assinatura de produção de Brad Pitt e já tem segunda temporada definida, é
uma série para experimentações televisivas, de ampliação das possibilidades estéticas
para a TV e o público tem a oportunidade de assistir com calma uma produção com
a sensibilidade do cinema, mas com a reflexão necessária de um livro. Mas
daqueles que a gente só larga quando lê a última página.
No que se
refere a séries, 2017 já vai começar muito bom. Logo no primeiro dia do ano,
vai ao ar a tão esperada quarta temporada de Sherlock. Ainda é difícil saber
quando chegará ao Brasil, mas o que se sabe é que o três episódios serão
intitulados como “The Six Thatchers”. As últimas entrevistas dos produtores e
atores indicam que os capítulos finais de uma das melhores adaptações já feitas
para as histórias de Sir Arthur Conan Doyle devem superar as expectativas.
Sherlock
ambienta no século 21 as famosas aventuras do famoso detetive britânico com uma
agilidade e sagacidade de roteiro poucas vezes vistas na televisão. A série
ainda tem à frente um dos melhores atores da atualidade. Benedict Cumberbatch
tem sido um fenômeno em todos os trabalhos em que atua e, sem dúvida, é o
principal responsável também pelo sucesso de Sherlock.
Desventuras
em série
É grande a
expectativa também em relação a estreia da adaptação para a telinha da saga dos
livros campeões mundiais de vendas “Desventuras em série”, do escritor Daniel
Handler e que já rendeu um longa estrelado por Jim Carrey em 2004. O ator Neil
Patrick Harris (de How I met your mother) personifica Conde Olaf, tio de
Violet, Klaus e Sunny Baudalaire, crianças orfãs obrigadas a ficar sob os
cuidados de um parente mal-intencionado, interessado apenas em colocar as mãos na
herança dos três. A estreia é dia 13 de janeiro.
Punho de
Ferro e Os defensores
Quem é fã
de Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage terá em 2017 uma super dose de super-heróis. O
Netflix promete a estreia de duas séries desse universo da Marvel. Em março, estreia Punho de Ferro, com 13 episódios que conta a história de Daniel Rand
(Finn Jones), um bilionário e monge budista com poderes especiais e mestre em
kung fu.
Já Os Defensores
deverá reunir todo o universo da Marvel já visto pelo serviço de streaming.
É típico do ser humano: sempre queremos heróis, aqueles que nos
dão esperança quando tudo parece perdido. Talvez por isso parte da crítica
tenha se decepcionado com o bom filme de Clinton Eastwood, “Sully - O Herói do
Rio Hudson”(aliás, apenas “Sully”, em inglês), já que o personagem verídico
- interpretado com a maior simplicidade e competência por Tom Hanks - passa
longe da imagem do sujeito valente que arrisca a vida para salvar o mundo.
Até porque o verdadeiro Sully Sullenberger era um piloto de 57 anos quando
"aterrissou" dentro do rio Hudson, em Nova York, com 150 passageiros
a bordo e mais quatro tripulantes, durante um voo doméstico, sem que ninguém
morresse. O avião tinha acabado de decolar quando colidiu com um bando de pássaros
e ficou sem os motores, precisando fazer uma aterrissagem de emergência.
Na época, trabalhando em um jornal, lembro de olhar incrédula
para as fotos do avião dentro do rio e das pessoas sendo recolhidas por equipes
de resgate. Não me lembrava do rosto do piloto e do co-piloto, nem acompanhei
as discussões posteriores sobre se eles poderiam ter pousado em algum aeroporto
próximo, o que com certeza invalidaria o mérito do nosso "herói".
Bem, no cinema tive a chance, que todos podem ter, de saber como tudo aconteceu
de fato.Clint Eastwood continua um diretor de olhar
afiado sobre as pequenas grandes coisas que caracterizam o ser humano. E mostra
como um homem comum, ao ter de tomar uma decisão crucial, precisa contar com a
experiência acumulada e arcar com as consequências de seus gestos. No filme, o
incidente com o avião, por mais impressionante que seja, não é o essencial, mas
sim a maneira como Sully lida com o problema e com as dúvidas que cercam sua
atitude. Pois não bastava ter salvo a vida de todas as pessoas a bordo, ainda
teve de defender sua posição. E é aí que o filme “pega”. Por exemplo, quando o
confrontam sobre o critério usado para a decisão de pousar no rio, ele diz algo
como "meus 40 anos de experiência” (Sully voava desde os 16 anos). Ou
seja, não se trata apenas de coragem e nem mesmo de competência: decisões
tomadas em momentos difíceis são fruto, também, das experiências, erros e
acertos acontecidos ao longo do tempo.
Clint, como sempre, sabe do que fala. E Tom Hanks é um ator perfeito para o
papel. Contido, distante de estrelismos, do histrionismo e do glamour aos quais
é tão fácil a um ator de Hollywood se entregar, Hanks torna seu personagem
absolutamente crível. Como seu personagem, ele é um cara fazendo seu trabalho
da melhor maneira possível.
Não é um filme feito para ganhar Oscar, nem mesmo um grande filme. Mas é feito
por gente inteligente, para ser assistido por quem gosta de pensar sobre o que
faz um ser humano comum na hora em que tem de tomar uma atitude incomum.
Sem muito
alarde inicial, o filme A chegada, dirigido por Denis Villeneuve, é, sem
dúvida, uma das grandes surpresas do ano do gênero ficção científica.
Roteiro, ritmo, fotografia, direção de atores e, sobretudo, a interpretação de
Amy Adams, que protagoniza o filme na pele de uma especialista em linguística,
constroem um novo tipo de sci-fi para a tela grande. Há todos os elementos de mistério de uma narrativa típica do gênero: alienígenas chegam a Terra sem barulho, sem
ameaças, em 12 casulos que pairam no ar em 12 locais diferentes do planeta,
gerando pânico, declarações de guerra e a iminência de um conflito global. Tudo
isso simplesmente porque ninguém entende o porquê da presença dessas criaturas.
A dra. Louise
Banks, vivida por Amy Adams, é uma das poucas capazes de construir pontes
linguísticas que iniciam um processo de interação com os estranhos seres. A
beleza do filme e do roteiro está na maneira como é feita essa construção.
Villeneuve e o roteirista Eric Heisserer criam então um enredo de ficção
científica que trata do que nos faz essencialmente humanos, sobre as incertezas
em relação ao tempo que temos neste planeta e sobre uma contagem de tempo não
linear. A maneira como expressamos ideias, sentimentos, sonhamos e percebemos o
mundo é colocada em uma perspectiva de reaprendizado, afinal, como nos
apresentaríamos para uma criatura de outro planeta? Como uma criança percebe o
mundo?
O filme é
baseado no conto de Ted Chiang, que tem como título original “Story of your
life”. O ponto de partida a hipótese de Sapir-Whorf que, resumidamente, indica
que a linguagem que usamos determina a maneira como pensamos.
O filme A
chegada tem ainda Jeremy Renner e Forrest Whitaker. Embora estejam bem em seus
papéis, o foco é na personagem de Amy Adams, que faz com que o espectador
participe da história por meio de suas descobertas e leva quem assiste a sentir
todo o processo de descoberta que a personagem está passando. Há muitas
comparações sendo feitas com outras referências no gênero: 2001 – uma odisseia
no espaço (Stanley Kubrick), Interestelar (Christopher Nolan), A árvore da vida
(Terrence Malick) etc. A chegada é singular na maneira como humaniza as
questões científicas mais básicas, como as dúvidas em relação a espaço-tempo, o
quanto uma civilização pode alcançar em termos tecnológicos e a capacidade
humana de lidar com os avanços do conhecimento sem criar uma corrida
armamentista. É um roteiro que está muito mais para Isaac Asimov do que para
possíveis homenagens a outros cineastas, é muito mais literário nas questões
que aborda do que em termos de pretensão visual, embora seja um filme
belíssimo. É uma narrativa simples, de entretenimento, mas que eleva a ficção
científica a um patamar diferente, capaz de agradar tanto fãs do gênero quanto
a desavisados ou quem está apenas em busca de uma história bem contada.
O homem que
viu o infinito
Srinivasa
Alyangar Ramanujan foi uma matemático indiano que, após uma infância difícil em
Madras, na Índia, teve a oportunidade de apresentar a genialidade das
descobertas que fez na Matemática na Universidade de Cambridge, Inglaterra, no
período da Primeira Guerra Mundial. Desacreditado por outros acadêmicos por não
ter uma formação convencional, foi obrigado a ultrapassar o preconceito e as
formalidades acadêmicas para provar as teorias numéricas, séries infinitas,
frações, dentre outras descobertas.
O filme de
Matthew Brown – O homem que viu o infinito – é a bela cinebiografia do
matemático indiano, interpretado pelo carismático Dev Patel. O ator faz uma
fabulosa parceria com Jeremy Irons no longa, que vive o acadêmico Godfrey
Harold Hardy, um defensor da beleza estética da matemática pura. O destaque do
filme é sem dúvida as descobertas do protagonista, porém, o contexto social da
época assim como as diferenças culturais, que determinam a maneira como se
constrói conhecimento científico, é apresentado por meio das interpretações de
Patel e Irons – um é jovem e entusiasta da difusão do conhecimento puro e
simples, enquanto o professor mais velho fica entre a necessidade de inovação e o rigor da academia. O filme ficou em cartaz apenas no mês de outubro nos cinemas, mas acaba de ser lançado no Netflix.
O universo
criado pela escritora britânica J.K. Rowling é tão rico e extenso que não é
difícil imaginar uma série de livros e filmes para os próximos anos. O curioso
e positivo foi a escolha do personagem Newt Scamander para retomar o mundo
mágico dos bruxos. Quem leu os livros atentamente vai se lembrar que, embora
ele tenha sido citado em vários momentos na obra, não era um personagem que
saltava na trama. Era de se imaginar que outros personagens famosos como o
próprio Lorde Voldemort, o bruxo e diretor de Hogwarts Alvo Dumbledore ou ainda
os próprios pais de Harry Potter pudessem protagonizar alguma história. Mas
acho que está aí o acerto de J.K. Rowling. A criação de um novo roteiro baseado
em um personagem que não havia gerado tanta expectativa nos fãs foi uma aposta
certeira, porque só criou ainda mais curiosidade.
Outro ponto
importante é que essa escolha permite múltiplos cenários. A cidade de Nova York
dos anos 20 em pleno desenvolvimento econômico como ponto desencadeador dos
acontecimentos ajudou a gerar desdobramentos futuros que permitem a continuação
neste mesmo local ou ainda a aposta em uma época ou país diferente. Fica
provado em Animais fantásticos e onde habitam que as prometidas cinco
sequências para o longa podem render muitas surpresas. Os próprios animais e a
diversidade de criaturas, como os dragões, já renderiam boas histórias. Mas o
foco da trama parece ser o vilão Gellert Grindelwald, vivido nas telas por
Johnny Depp (perfeito!), que é citado de forma breve em Harry Potter e a Pedra
Filosofal e depois ganha mais peso em Harry Potter e as Relíquias da Morte. A
necessidade de o mundo bruxo ser escondido dos “trouxas”, ou seja, pessoas
comuns, sem características mágicas, entra em discussão, já que há aqueles que
sempre acreditaram em uma não separação entre bruxos e não-mágicos (a nova
denominação utilizada em Animais fantásticos e onde habitam). Por um bem maior,
os trouxas não podem saber da existência de poderes com os quais não sabem
lidar sob o risco de tentar utilizá-los de forma perigosa, como em guerras. Mas
há ainda aqueles que acreditam em uma união entre as pessoas, com a permissão
de casamentos e criação de famílias de trouxas e bruxos, o ponto mais polêmico
da discussão. Se antes a história girava em torno de um menino bruxo que
sobreviveu a um terrível ataque do Lorde das Trevas, desta vez, todo o universo
fantástico de J.K Rowling sustenta o enredo do mais novo longa e os próximos
que estão por vir.
Como
sempre, a escritora que também é produtora do filme, teve o cuidado extremo de
escolher cada detalhe, principalmente, os atores. Eddie Redmayne (ganhador do
Oscar pelo filme A teoria de tudo) foi uma escolha excelente. O ator, que já
vem provando ao público a versatilidade com que interpreta diversos tipos,
imprime um carisma ao personagem absolutamente diferente da impetuosidade de
Harry Potter, Hermione e Rony, mas é ao mesmo tempo alguém tímido e destemido
e, sobretudo, um apaixonado pelo mundo dos bichos, um cientista, um pesquisador
que tem muito a revelar ao mundo. É o personagem que se revela aos poucos, algo
que Redmayne faz com maestria. Eu não consigo deixar de relacionar a composição desse personagem com certas características de Hermione Granger, principalmente quando se fala da maleta mágica de Scamander.
A atriz Katherine
Waterston, que vive Porpetina Goldstein ou Tina Goldstein, teve boa harmonia
com Redmayne e, apesar de não ser tão conhecida da tela grande, provou ser a
melhor escolha, já que faz uma auror expulsa de uma divisão de investigações do
Ministério da Magia nos Estados Unidos, uma espécie de FBI bruxo.
Colin
Farrel faz Percival Graves, mas o que se pode dizer aqui sem dar nenhum spoiler
é que o personagem ajudar a entrelaçar a trama.
O lado
cômico ficou por conta do personagem Jacob Kowalski, vivido por Dan Fogler, que
faz um não-mágico e protagoniza as cenas mais divertidas da trama.
Queenie
Goldstein, a irmã de Tina, vivida pela atriz Alison Sudol, é o personagem que, por enquanto, promete ter
habilidades que podem render no futuro reviravoltas no enredo.
O filme é
realmente encantador, não penas pela trama que é simples, porém, cheia de
possibilidades, mas pelos lindos efeitos especiais e cenas de ação de arrepiar,
tamanha a veracidade. Ainda mais considerando que se trata do impossível. A
cena final é comovente: emoção e beleza em altas doses.
É possível
que Dr. Estranho, o mais novo longa da Marvel, seja um divisor de águas quando
se fala em filme de super-heróis. Caso se confirme e a expectativa de recordes
de bilheteria – e a estreia em 33 países já vem concretizando isso – o público
vai querer cada vez mais de roteiristas e diretores. Isso porque Dr. Estranho, e definitivamente por causa de Benedict Cumberbatch, está entre os melhores longas do
gênero da nova safra de adaptações de HQs
para o cinema.
A atuação
de Benedict Cumberbatch está simplesmente sensacional. O ator, que sem dúvida
nenhuma é um dos melhores da atualidade, dá um tom tão perfeito ao personagem,
com nuances que vão da extrema arrogância ao mais miserável dos seres, e ainda
com a energia e força esperada de um super-herói, que produtores vão ter de
pensar mais antes de selecionar novos protagonistas para encarnar essas
criaturas fora do comum.
Cumberbatch
é a personificação do Doutor Stephen Vincent Strange, personagem criado pelor
Stan Lee e Steve Ditko nos anos 60, e um dos mais interessantes do universo
Marvel. Dr. Estranho se utiliza da extrema inteligência e de características
místicas para combater criaturas do mal. Além do fato de o personagem ser muito
bem construído nos HQs, Cumberbatch foi capaz de dar as nuances necessárias
para a complexidade do médico que se achava uma espécie de deus e perde a
capacidade de fazer cirurgias após um grave acidente.
As
características do personagem e o universo criado pelos quadrinhos foram muito
bem utilizados pelos roteiristas Scott Derrickson e Robert Cargill. Derrickson
também dirige o longa e, talvez pelo fato de ter a liberdade de direção e
roteiro, conseguiu executá-lo com maestria, dando a necessária liberdade para o
elenco estrelado atuar.
O filme tem
ainda as presenças dos excelentes Mads Mikkelsen, que faz o vilão Kaecilius, e
da incrível Tilda Swinton, a Anciã, que orbitam harmoniosamente em torno de Cumberbatch, um
enriquecendo a atuação de outro. Esse é um dos pontos em que o longa Dr. Estranho
se diferencia de outros filmes da Marvel. A escolha de atores do quilate de
Mikkelsen, Swinton, Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, que tem uma papel crucial na
trama, deixa o filme redondo, harmonioso, sem pontas soltas. Além disso, o
roteiro usa e abusa das possibilidades místicas oferecidas por toda a
simbologia exercida pelas religiões do Oriente. O filme ainda tem a qualidade
de acelerar a história da formação e conversão do personagem principal indo
direto para o que interessa – ao território desconhecido e intrigante da
cultura oriental, com cenas mirabolantes e inacreditáveis na cidade de
Katmandu, no Nepal. Mandalas começam a girar vertiginosamente levando o espectador para um mundo mágico e transcendente, onde a matéria se desfaz em minúsculas
partículas para se refazer em multiversos. Os efeitos gráficos e especiais são
tão bem executados que não cansam, tamanha beleza, remetendo muitas
vezes ao infinito das obras do artista gráfico holandês M.C. Escher, onde as
figuras e os espaços não têm começo e nem fim.
E ainda
para arrematar esse contexto uma trilha sonora arrasadora, em que a sonoplastia
é permeada com um som de cravo para dar uma sonoridade de outro mundo. E, como
senão bastasse tanta beleza visual, Interestellar Overdrive do Pink Floyd nos
encanta e nos mergulha em um mundo surreal, psicodélico e fantástico.